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Fala, Noel: nos 110 anos do Poeta da Vila, histórias de sua obra em primeira pessoa

Pedro Paulo Malta

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Divisor de águas na história da nossa música popular, a obra de Noel Rosa já foi tema de ensaios, teses acadêmicas, matérias de jornal, coletâneas musicais e livros, a começar pelo fundamental “Noel Rosa, uma biografia”, lançamento de 1990 co-assinado por Carlos Didier e João Máximo. Também já foi tema de posts e playlists aqui na Discografia Brasileira, onde as primeiras gravações de sua obra (todas lançadas em 78 rotações) podem ser devidamente acessadas e ouvidas.

Nos 110 anos de seu nascimento (completados neste dia 11 de dezembro de 2020), recorremos a outro grande repositório – a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional – para termos o próprio Noel Rosa falando de sua obra. E assim, através de entrevistas dele à imprensa de sua época, chegamos às histórias deste post: algumas fantasiosas, outras com toques de ironia, mas todas contadas – em primeira pessoa – pelo Poeta da Vila.

Como no Diário de Notícias de 15-2-1931, que o apresenta como um “jovem e popular compositor de sambas”: “Tem apenas 20 anos de idade, o que vale dizer que um belo futuro o espera.” A matéria, não assinada, conta que Noel esperava o bonde no Largo de São Francisco, no Centro do Rio, quando foi abordado pela reportagem, que o convidou para visitar a redação. “Depois de alguma relutância”, diz o texto, “Noel Rosa, que é extremamente modesto, acedeu ao nosso convite”.

A conversa começou pela curiosidade do Diário de Notícias sobre quais foram as “primeiras produções” do compositor, que prontamente informou: “‘Festa no céu’, uma toada sertaneja, e ‘Minha viola’, uma embolada.” Mais adiante, falou das composições feitas para o carnaval daquele ano: “O meu último samba se chama ‘Por essa vez passa...’. Tenho também uma marcha carnavalesca, ‘Dona Aracy’. Dei a letra para a marcha ‘Dona Emília’, cuja música foi feita, com felicidade, por Glauco Vianna.”

Lançado em disco no mês anterior à matéria (janeiro de 1931), o samba “Eu vou pra Vila” foi o tema seguinte da conversa, fazendo Noel relembrar um baile no Engenho Novo. “À hora da saída, já muito tarde, instaram para que eu ficasse. Protestei que necessitava recolher-me à casa, porém ainda houve muita insistência. Diante disso, espontaneamente respondi com o tom que se verifica no samba: ‘Eu vou pra Vila...’ E parti. Embarquei no bonde Vila Isabel-Engenho Novo e não me saía da mente aquele estribilho: eu vou pra Vila... Ocorreu-me, então, a ideia de fazer um samba.”

Quando perguntado sobre seu maior sucesso, “Com que roupa”, Noel Rosa se disse grato pela acolhida com que o samba foi recebido no ano anterior. Aproveitou para fazer também um esclarecimento: “Quando fiz o ‘Com que roupa’, não tive em mira fazer alusão ao povo, que, apesar de tudo, sei que ainda tem roupa e faço votos que continue a tê-la em profusão, e que não lhe falte roupa, e muita, para brincar no carnaval.”

Em seguida, explicou a origem da composição: “‘Com que roupa?’ é uma pergunta que se aplica a diversos casos: por exemplo, se um camarada está sem dinheiro e alguém o convida para um baile ou uma festa qualquer, ele retruca, com um gesto significativo: com que roupa? (isto é, com que dinheiro?). Se precisa resolver qualquer assunto intrincado, sem descobrir os meios para tal, recorre ainda à mesma interrogação: com que roupa? Aí está.”

Curiosamente, o entusiasmo já não era o mesmo dali a cinco anos e meio, mais precisamente em 18 de julho de 1936, quando, entrevistado pela revista Carioca, deu uma versão diferente para seu primeiro sucesso: “Não gosto desta música. Foi feita em 1930, sobre o momento político brasileiro, onde os partidos se apresentavam e se desfaziam porque não tinham roupa para aparecer. E saiu o estribilho que todo o Rio cantou: ‘Com que roupa eu vou / Ao samba que você me convidou...’”

Noel soou mais animado ao contar, na mesma matéria, a história de outro grande sucesso, surgido durante a turnê que fez ao Sul do Brasil, no primeiro semestre de 1932, com Francisco Alves e Mário Reis: “Outro samba que teve sucesso e que gosto muito é ‘Até amanhã’, que fiz em Porto Alegre, na véspera de embarcar para o Rio. Defronte ao meu hotel morava a ‘deusa’ inspiradora. Chovia muito e eu sentia desejos de vê-la. Da janela conversava com ela, mas, súbito, alguém a chamou e teve que se despedir. Fechou-se a janela e eu fiquei cantarolando: ‘Até amanhã / Se Deus quiser / Se não chover / Eu volto pra te ver, ó, mulher...’”

A matéria da revista Carioca, assinada por Jorge Maia, traz ainda Noel relembrando a história que originou o tristonho “Pra esquecer”, que no texto é descrito como “seu samba querido”, para o qual “Noel tem simpatias todas especiais”. “A vítima não era eu”, diz o Poeta da Vila. “Era um amigo que gostava muito de uma mulher e que por ela abandonou tudo. Uma noite eu o vi dançando num cabaré com ela. Talvez fosse a última noite. Ele havia reunido o que lhe restava da fortuna e tinha ido vê-la. A cena me impressionou fortemente e dias depois o samba nasceu. E nasceu triste como a história que eu via desenrolar-se perante meus olhos.”

A história é um tanto diferente de outra que ele havia contado ao Diário Carioca, que em 17 de janeiro de 1936 trazia aspas de Noel sobre “Pra esquecer”: “Foi numa noite assim: a orquestra do Assyrio tocava um tango torturante: ‘Te quiero’; o céu, constelado, olhava, lá de cima, com os olhos divinos das estrelas. Eu, sozinho no cabaré, pensava em alguém; a saudade começou a cantar no meu coração; e eu escrevi o que a saudade cantou.”

Na matéria, assinada por um certo K. Rapeta (codinome de Arlindo Cardoso), Noel diz ainda quais são suas composições preferidas: “‘João Ninguém’ e ‘Três apitos’. O primeiro eu o senti no torvelinho anônimo das calçadas. Há muito João Ninguém por aí, vivendo a sua tragédia. ‘Três apitos’ resume o romance de amor mais sincero da minha vida gloriosamente romântica.”

Como de costume nas matérias pré-carnavalescas, Noel também falou ao Diário Carioca sobre as músicas que tinha preparado pra folia de 1936: “Estou com três marchas de fé: ‘Pierrô apaixonado’, de parceria com Heitor dos Prazeres, ‘Não resta a menor dúvida’, com Hervé Cordovil, e ‘Que baixo!’, com Nássara. Esta última está gravada com ‘Palpite infeliz’. Aracy de Almeida implicou com uma palavra do coro. Mas eu não mudei. A palavra ficou. E Aracy de Almeida, para não perder a gravação de ‘Palpite infeliz’, gravou a marcha, respeitando a palavra da implicância, letra por letra.” 

“Que palavra é essa?”, perguntou o repórter. Noel: “Pulga.”

Sobre o sucesso instantâneo de “Palpite infeliz”, lançado no mesmo mês daquela matéria (janeiro de 1936), Noel disse que foi “uma grande surpresa”. “Eu não tencionava concorrer ao páreo do samba este carnaval. Escrevi ‘Palpite infeliz’ unicamente para a Vila, conforme tenho feito nos anos anteriores e conforme fazem todos os rapazes da turma lá de cima – o Nássara, o Reis (Christóvão de Alencar), o Arnaldo Amaral, o Sylvio Pinto...”

“Mas a cidade tomou conta de ‘Palpite infeliz’”, comenta o entrevistador. “Ninguém foge ao seu destino e o destino de um grande samba...” Noel foi espirituoso na resposta: “Tem razão. Ninguém foge ao seu destino. Eu sou um exemplo: quiseram que eu fosse médico e eu acabei sambista”, disse o compositor, relembrando sua breve passagem pela Faculdade Nacional de Medicina, em 1931, quando abandonou o curso já no primeiro semestre.

K. Rapeta, então, quis saber a que Noel atribui “a vitória do samba” naqueles anos 30. “O samba evoluiu. A rudimentar voz do morro transformou-se, aos poucos, numa autêntica expressão artística, produto exclusivo da nossa sensibilidade”, avalia o compositor. “A poesia espontânea do nosso povo levou a melhor na luta contra o feitiço do academismo a que os intelectuais do Brasil viveram durante muitos anos ingloriamente escravizados. Poetas autênticos, anquilosados no manejo do soneto, depauperados pela torturante lapidação de decassílabos e alexandrinos sonoros, sentiram, em tempo, a verdade.”

Como exemplo, Noel Rosa cita o parceiro Orestes Barbosa, que “se entregou à nossa poesia popular com verdadeira paixão”, e Jorge Faraj, “outro que abandonou os alexandrinos”. No arremate, o Poeta da Vila não livra nem o principal autor parnasiano. “Não duvido que Bilac, se fosse vivo, tomasse o bonde do samba.”

Imagem: detalhe do Diário Carioca de 17 de janeiro de 1936

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