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Cauby Peixoto, 90 anos: a história e os ‘estranhos caminhos’ de ‘Conceição’

Pedro Paulo Malta

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Ai de Nelson Gonçalves se não cantasse “A volta do boêmio” e de Linda Batista se deixasse o palco sem interpretar “Vingança”. Já nos shows de Carlos Galhardo não podia faltar a romântica “Fascinação”. E nos de Inezita Barroso, a divertida “Marvada pinga”. Músicas que se tornaram marcas registradas de seus intérpretes, não só pelo sucesso que fizeram, como também por terem sido, na maioria dos casos, as primeiras destes cantores ouvidas pelo grande público.

Não foi diferente com Cauby Peixoto, que antes de se consagrar como uma das vozes mais queridas do país, deu suas patinadas entre tarantelas, canções estrangeiras e outros gêneros musicais gravados em seus discos iniciais, no começo da década de 1950. No caminho até o reconhecimento como grande intérprete romântico, um passo decisivo foi o sucesso de “Conceição”: o samba-canção de Dunga e Jair Amorim que levou seu vozeirão grave e aveludado para além das fãs histéricas que já o cercavam em auditórios e shows.

Nossa homenagem a Cauby pelos 90 anos de seu nascimento (em Niterói), que se completam no dia 10 de fevereiro, é justamente relembrando este cartão de visitas musical, que a exemplo de outros clássicos do nosso cancioneiro – como “Carinhoso” (Pixinguinha e João de Barro), “Ai que saudades da Amélia” (Ataulfo Alves e Mário Lago) e “Desafinado” (Tom Jobim e Newton Mendonça) – foi rejeitado antes de encontrar sua voz definitiva.

Pois quem entrou para a história dizendo não a “Conceição” foi simplesmente Silvio Caldas, que não gostou e passou adiante. Ou, como escreveu o jornalista Ruy Castro no livro “A noite do meu bem: a história e as histórias do samba canção” (Companhia das Letras, 2015), a recusa teria se dado “por tédio ou estar de partida para algum remoto grotão”. Seja como for,  o mesmo não aconteceu quando os compositores ofereceram o samba-canção a Di Veras, o astuto empresário de Cauby, que imediatamente farejou sucesso: “Grava ontem!”

Mesmo com a urgência recomendada, a gravação de Cauby não foi a primeira de “Conceição” lançada em disco: a primazia coube à cantora Dircinha Batista, com seu canto derramado num 78 rotações da Victor, em agosto de 1956. Só no mês seguinte a Columbia pôs no mercado a interpretação de Cauby para o samba-canção de Dunga e Jair Amorim - interpretação definitiva, como se veria com o tempo.

Lançando discos desde 1951, Cauby Peixoto conquistava ali seu terceiro sucesso. O primeiro deles fora lançado em 1954, refazendo em português um hit de seu ídolo Nat King Cole, “Blue gardênia”, composição dos estadunidenses Bob Russel e Lester Lee, aqui vertida por Antônio Carlos. O outro, de 1955, era a tarantela “Ci ciu ci (Canção do rouxinol)”: uma versão de Nadir Peres para criação original dos italianos Saverio Seracini e Ettore Minoretti.

Mas estouro mesmo foi o de “Conceição”, que não à toa tornou-se marca registrada do cantor pelo resto da carreira. “A melodia envolvente foi um prato cheio pro Cauby, que acabou sendo decisivo pro sucesso dessa música”, diz o jornalista e pesquisador Rodrigo Faour, autor da biografia “Bastidores: Cauby Peixoto, 50 anos da voz e do mito” (Record, 2001). “Na minha opinião, a interpretação contundente que ele deu a ‘Conceição’ é mais importante até do que a melodia ou a letra, que estão na média de um certo tipo de música dos anos 50.”

“Nas primeiras notas, as da palavra ‘Con-cei-ção’, quando sua voz crescia, alongando a terceira delas, Cauby já tinha o ouvinte nas mãos”, relata o crítico musical Zuza Homem de Mello em seu livro “Copacabana: a trajetória do samba-canção” (Editora 34/Edições Sesc, 2018). “Sem nada de extraordinário, a composição de Dunga caía como uma luva para quem desejasse impressionar pela grandiloquência da voz. Cauby, aos 24 anos, conquistou o Brasil, entrando para o panteão dos maiorais.” Seguiram-se regravações em 78 rotações pelo Conjunto Farroupilha, pela Turma do Vale Tudo (ambas em 1957), por Vicente Celestino (1958) e pelo Trio Los Panchos (com letra em espanhol de Alfredo Gil, em 1959), entre outras.

Rodrigo Faour chama atenção para a história dramática de “Conceição”, contada com altas doses de moralismo nos versos da canção: a história da moça que “vivia no morro a sonhar” e desceu para o asfalto, onde adotou outro nome para percorrer “estranhos caminhos”. “Letras que contavam histórias assim, sobre prostitutas, eram muito comuns nessa época, assim como aquelas que falavam do sujeito em dúvida sobre ir ou não para a ‘orgia’”, conta o pesquisador. “Outro traço do sucesso dessa música é a expressão ‘ninguém sabe, ninguém viu’, até hoje na boca do povo.”  

“Conceição” foi mais um grande sucesso de Dunga – apelido do ferroviário carioca Waldemar de Abreu (1907-1991), que era ligado à escola de samba Unidos de Vila Isabel e até ali era mais conhecido como o compositor de “Chora cavaquinho”, sucesso de Orlando Silva em 1936. O jornalista Jair Amorim (1915-1993), natural de Santa Leopoldina (ES), teve outros êxitos como “Alguém como tu” (com José Maria de Abreu, em 1952), “Sentimental demais” (1965) e “O conde” (1969), as últimas duas com seu parceiro mais frequente, o cearense Evaldo Gouveia. 

Já Cauby Peixoto – após o estouro de “Conceição" – alcançou outros marcos em sua carreira: lançou a primeira gravação de um rock made in Brazil (“Rock and roll em Copacabana”, de Miguel Gustavo, em 1957), completou sua aventura estadunidense (foram quatro temporadas por lá, entre 1955 e 59) e amargou longo período de ostracismo a partir de 1967, quando se iniciou, segundo Rodrigo Faour, sua “pior fase fonográfica”. A volta aos holofotes veio só em 1980, quando o LP “Cauby! Cauby!” (Som Livre) lhe valeu mais um clássico, Bastidores” (Chico Buarque), dos versos “Canteeeei, canteeeeeeei...”

E assim o repertório do Professor" – como era conhecido no meio artístico – ganhou outro número obrigatório. Até o fim de sua vida (aos 85 anos, em 15-05-2016), o bolero de Chico passou a rivalizar com a triste história de Conceição pelos aplausos mais entusiasmados do (ainda histérico) fã-clube de Cauby Peixoto.

Foto: IMS / Coleção José Ramos Tinhorão

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