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Marchinhas para brincar em casa: uma seleção afetiva por João Roberto Kelly

Pedro Paulo Malta

Tocar fonogramas

Me dá uma picada
Que eu quero me vacinar
Do jeito como está
Já não pode mais ficar

Por pouco o telefonema para João Roberto Kelly não deu em marchinha: aos 82 anos, o compositor está “guardadinho em casa”, como costuma dizer, mas nem por isso deixa de acompanhar o que se passa à sua volta. De seu apartamento em Copacabana, observa as notícias da pandemia e da vacinação pela TV, resignado com o primeiro carnaval que não vai poder brincar. Pedimos a ele que listasse suas dez marchinhas preferidas e ele tratou logo de deixar suas próprias composições de fora. “Minhas músicas são feito minhas filhas. Gosto delas acima de todas, sabe?”, explica o criador de “Cabeleira do Zezé”, “Mulata iê-iê-iê” e “Bota a camisinha”. “Se eu escolhesse uma, as outras iam ficar com ciúme e isso eu não quero.” O resultado é uma pequena antologia comentada do gênero musical que ele conhece como ninguém.

Alá la ô – Marchinha muito boa, divertida, gostosa do Haroldo Lobo e do Nássara, que era parceiro de um grande amigo meu, o Luiz Reis. Além das marchinhas e sambas que compunha, Nássara fez história também como grande desenhista que ele era. 

Balancê – Melodia, harmonia, letra... Tudo é lindo nessa marchinha. Uma composição muitíssimo bem feita que a Carmen Miranda lançou e que muito tempo depois a Gal Costa regravou com sucesso.

Cordão dos puxa-sacos – Uma marchinha que nunca perde a atualidade, né? Foi um grande sucesso dos Anjos do Inferno – conjunto vocal que estourou aqui e depois foi pro México, onde brilhou também. Eu era muito fã deles e fiquei todo bobo quando vi que estavam no elenco da primeira peça que eu musiquei, ‘Sputnik no morro’, em 1958, no Teatrinho Jardel.

Índio quer apito – Uma marchinha do meu tempo e da minha praia – do jeito como eu gosto de fazer, mais concisa, como era a linha do Haroldo Lobo. Porque essa é a grande jogada da marchinha: você dizer muito em poucos versos. Sem contar o refrão de ‘Índio quer apito’, que faz ferver qualquer baile ou bloco de rua.

Linda morena – O que mais me chama atenção nessa marchinha é a feitura dela, o acabamento: a melodia linda, a letra... Aliás, as letras. ‘Linda morena’ é do tempo em que a segunda parte tinha duas ou três letras diferentes. E que boas sacadas as do Lamartine dessas letras, hein?

Pedreiro Valdemar – Conheci o Wilson Batista na editora Vitale e vi que era um sujeito muito bem humorado, gente boa, formidável. Sem contar o compositor que ele era, muito maior do que a famosa polêmica com Noel Rosa. O negócio dele era samba, mas também fazia marchas como essa delícia que ele compôs com o Roberto Martins. Uma marchinha gostosa, risonha e crítica.

Pierrô apaixonado – Em música de carnaval você sabe que eu sou mais da sátira, que é nessa linha que costumo compor, né? Mas adoro as marchinhas românticas, melódicas, carregadas de lirismo, como ‘Quem sabe, sabe’ (Joel de Almeida e Carvalhinho) e como essa do Noel e do Heitor dos Prazeres. Gosto muito da melodia e da letra.

Sassaricando – Essa é outra do meu tempo. Uma marcha muito bem feita, sintética, como uma charge. Composição do meu velho amigo Luiz Antônio, figura antológica com quem trabalhei na Riotur. Era militar, mas a lembrança que guardo dele é de um grande boêmio, frequentador da boate Drink, que pertencia ao Djalma Ferreira, parceiro querido dele.

Teu cabelo não nega – Considero essa marchinha um verdadeiro hino do carnaval: uma composição muito bem feita, maravilhosa. Há quem chame de racista, mas não vejo assim... O carnaval é uma grande brincadeira e, a meu ver, o politicamente correto fica até meio sem propósito nessa festa...

Touradas em Madri – Essa marchinha é uma música épica, né? E tão linda, tão bem feita dentro daquele ambiente espanholado... Uma obra de quem sabe fazer, no caso o Braguinha e o Alberto Ribeiro, que era o grande parceiro dele.


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