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Chico Anysio noventão: centenas de personagens... e de músicas

Fernando Krieger

Tocar fonogramas

Dizem, e talvez seja só boato, que a única nota 10 que Aldemar Vigário recebeu do professor Raimundo foi no dia em que, durante a habitual sabatina, quando evocava – como sempre – antigas lembranças dos tempos de Maranguape, no Ceará, mandou esta: “Tu te lembras, Raimundo, quando te aventuraste pela música? Interpretando umas coisinhas daquele iniciante, o tal de Francisco Anysio? Chegaste até a gravar disco!”. E o amado mestre Raimundo não teve alternativa a não ser dar a nota máxima ao aluno embromador: desta vez, seu Aldemar (salve, Lúcio Mauro!) estava certo.

O professor Raimundo foi levado aos estúdios fonográficos – assim como tantos outros personagens depois dele – pelas mãos de seu criador e alter ego, o genial Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho (12/04/1931 – 23/03/2012), que dispensa apresentações: artista de rádio, TV e cinema, ator, humorista, escritor, roteirista, diretor, locutor, comentarista, dublador, pintor... Só de tipos, criados por ele para seus muitos programas no rádio e na televisão, foram mais de duzentos (oficialmente são 209). Tamanha atividade acabou eclipsando outro de seus grandes talentos: o de poeta/letrista da música popular. Sua produção, de acordo com fontes diversas, ultrapassaria 200 composições.

Costumava contar que este seu dom aflorou depois de ouvir a versão original, instrumental, de “Gente humilde”, clássico do violonista Garoto que mais tarde recebeu letra de outro Chico, o Buarque, e de Vinicius de Moraes. Chico, o Anysio, chegou a fazer versos para a melodia; segundo ele, eram “alegres e não doídos, porque os subúrbios são mais contentes que tristes, mais alegres que chorosos”. Estreou como autor musical a um mês de completar 22 anos, em março de 1953, numa parceria com Oscar Belandi e Wilson Silva, o samba-canção “Quando”, gravado por Osvaldo Silva.

Foi em 16 de abril daquele ano, 4 dias depois de seu aniversário, que o jovem comediante incorporou Raimundo (originalmente Raymundo) Nonato – cuja “Escolinha” fora inaugurada na Rádio Mayrink Veiga em 1952 – na quadrilha “Professor Raimundo”, parceria sua com Orlando Silveira, interpretada pelo regional de Waldiro Tramontano, o Canhoto, com o homenageado em pessoa comandando a dança e dizendo ao final o seu famoso bordão: “Vai comendo, Raimundo”. A expressão acabou inspirando dois baiões com este título: o primeiro, de Amado Régis e Catulo de Paula, foi gravado por este último em 1953, e o segundo, de 1954, parceria de Petrus Paulus e Ismael Augusto, ganhou interpretação de Adelaide Chiozzo, com participação especial do próprio Raimundo. O querido educador também deixaria sua voz registrada no LP de 1986 “Forró de cabo a rabo”, de Gonzagão, comandando a “Quadrilha chorona”, parceria do Rei do Baião com Maranguape.

Havia musicalidade no ar na casa de Chico: a mãe, Haydée Viana, de nome artístico Haydée Paula, era pianista amadora; as irmãs Maria Lupicínia (mais tarde Lupe Gigliotti) e Maria Lilia estudaram canto lírico; o irmão mais velho, Elano de Paula, havia composto em 1950, junto com Chocolate (Dorival Silva), o samba “Canção de amor”, que nunca mais saiu do repertório de Elizeth Cardoso, sua primeira intérprete. Com a mãe, Haydée, Chico compôs dois baiões, sucessos na voz de Dolores Duran – de quem ele era amigo e padrinho de casamento –, “Não se avexe não” (1955) e “Tá nascendo fio” (1959). A cantora, ligada à música de fossa, virava uma autêntica forrozeira quando abraçava o repertório do humorista. Em 1956, ela levou ao disco outras duas músicas dele no mesmo gênero, as únicas que ele compôs sem parceiros: “A fia de Chico Brito” e “Zefa cangaceira”.

Entre 1953 e 1962, Chico Anysio teve 46 músicas registradas em 50 fonogramas e 24 destas canções – mais da metade, portanto – foram feitas por ele com Hianto de Almeida, cantor e compositor considerado um dos precursores da Bossa Nova. A primeira criação de ambos, em 1954, foi uma toada-baião, “Sodade doida”, pelo Trio Irakitan. No ano seguinte, chegou ao disco um samba-canção da dupla, “Conversa de sofá”. Há uma razão para o clima pré-bossa-novista da gravação: o arranjo é de Tom Jobim.

Sobre esta música, Chico – que, além de grande artista, também ficou conhecido por declarações um tanto polêmicas – afirmou, em entrevista à revista “Playboy” nº 148, de 1987: “Tenho a grande honra de dizer que o primeiro arranjo do Tom foi em cima de uma música com letra minha, ‘Conversa de sofá’. Ele tocava no Farolito nos anos 50, pegou essa música, fez o arranjo e deu para a cantora Gilda de Barros gravar. Acho até que foi aí que ele aprendeu a compor, porque descobriu que a música, do Hianto de Almeida, tinha uma sequência, e foi em cima”. Só que Tom já trabalhava como arranjador para a Continental desde 1952, e seis músicas suas haviam sido lançadas em disco entre 1953 e 54, algumas delas (se não todas) orquestradas por ele. Exageros de Chico, afinal.

Embora parte de sua produção nos discos de 78 rotações tivesse um acento nordestino, a maioria das letras que Francisco Anísio – seu nome costumava aparecer desse jeito nos rótulos – elaborou neste período foi para sambas e sambas-canção. Mas sempre transitou bem por diferentes estilos. Com Jayme Florence, o Meira, lendário violonista do choro carioca e seu parceiro em quatro composições, fez um coco, “Chuviscou”; com Altamiro Carrilho, criou o “Choro louco”; com Hianto, vieram dois fox-trots, “Cinema bossa-nova” – a expressão aparece aqui em 1955, antes mesmo de o movimento musical tomar forma – e “Bem devagar”“À procura do samba”, com Lyrio Panicalli, mistura o gênero carioca com cancan, pasodoble, bebop, blues, boogie-woogie e gafieira, numa salada de ritmos.

Gravado por grandes nomes da MPB nas décadas de 1950 e 1960, como Jorge Veiga, Orlando Silva, Dolores Duran, Dóris Monteiro, Sylvia Telles, Francisco Carlos, Marlene, Pery Ribeiro e outros, além dos grupos vocais Os Cariocas, Trio Irakitan e Vocalistas Tropicais, Chico Anysio considerava que somente passara a ser respeitado como autor musical depois do “Rancho da Praça Onze”, parceria com João Roberto Kelly consagrada na voz de Dalva de Oliveira. A marcha-rancho deu nome ao LP da cantora lançado em 1965. Outro de seus grandes sucessos da época dos long-playings foi o samba “Rio antigo (Como nos velhos tempos)”, com Nonato Buzar (que também era Raimundo Nonato!), revelado por Alcione em 1979 no LP “Gostoso veneno” e que o próprio Chico gravaria em 1983 no LP “Mussum”, em duo com o sambista e comediante dos Trapalhões.

No IV Festival de Música Popular Brasileira da Record, em 1968, a vibrante “A família”, parceria sua com Ary Toledo, deu a Jair Rodrigues o prêmio de melhor intérprete, além de ter sido a 3ª colocada na votação do júri popular. No ano seguinte, gravou, com as vozes de vários dos seus personagens, o LP “Chico Anísio inaugura o humor dançante”, que não fez sucesso na época, mas acabaria se tornando cult. Nas décadas de 1970 e 1980, alguns de seus tipos mais famosos lançaram discos. Alberto Roberto ganhou um compacto simples; Linguinha, Azambuja, Roberval Taylor, Coalhada e Painho tiveram long-playings para chamar de seus.

Muitos destes personagens eram moradores de Chico City (atração que ele protagonizou na Rede Globo entre 1973 e 1980). Para se ter ideia do sucesso do programa, um dos habitantes mais conceituados da cidade, o coronel Pantaleão, foi homenageado junto com seu núcleo – Terta (Suely May) e Pedro Bó (Joe Lester) – num frevo de Nelson Ferreira, que Expedito Baracho gravou em 1974. O título da música, “Não, Pedro Bó!”, remetia ao bordão do coronel Pantaleão, pois Pedro Bó, personagem também idealizado por Chico, não dava uma dentro. Acabaria virando sinônimo, utilizado até hoje, de bobo, pessoa desatenta, que faz perguntas tolas.

O mais bem-sucedido desta turma certamente foi Baiano – possivelmente a melhor encarnação de Chico como cantor –, que, juntamente com o parceiro Paulinho (interpretado pelo saudoso ator, humorista, redator, cantor e compositor Arnaud Rodrigues), formou a dupla – de nome inspiradíssimo – Baiano e os Novos Caetanos, lançando quatro LPs entre 1974 e 1985. O hippie de meia-idade Lingote, criação bastante singular de Chico, costumava bater ponto nesses discos em participações especiais, com sua voz de timbre muito, muito, muito grave e suas gírias (quase) ininteligíveis (“falôôôô?”). Baiano também gravou um LP, “Cuca fresca”, em duo com Amaralina – a não menos saudosa comediante Nádia Maria.

Voltando às bolachas de 78 rotações, apenas dois tipos de Chico ficaram registrados em disco nesta época: o já citado e afamado professor Raimundo e o praticamente desconhecido Zé Lagoa, encarnado pelo comediante no “Forró do Zé Lagoa”, parceria de Francisco Anísio com o sanfoneiro Gerson Filho. A faixa, uma cena cômica gravada em 1958 e comercializada no ano seguinte, trazia um diálogo entre Zé Lagoa (Chico) e Chiquinha (Nancy Wanderley, sua primeira mulher, mãe de Lug de Paula, o Seu Boneco da “Escolinha do professor Raimundo”), acompanhados pelos oito baixos de Gerson. O personagem de Chico era um homônimo do capitão Zé Lagoa, criado pelo compositor pernambucano Rosil Cavalcanti, que o interpretava desde 1955 no programa “Forró de Zé Lagoa”, na Rádio Borborema de Campina Grande, na Paraíba. Rosil também compôs um “Forró do Zé Lagoa”, baião lançado em 1962 por Genival Lacerda e recriado no ano seguinte por Jackson do Pandeiro com enorme sucesso, em LP que levava o nome da música. Anos mais tarde, um terceiro “Forró do Zé Lagoa” surgiu na MPB, o de Dominguinhos e Anastácia, lançado por esta em 1978 .

Algumas das músicas com coautoria de Chico nem sempre foram creditadas a ele. Por exemplo, no rótulo do “Twist do pau de arara”, que José Messias lançou em 1963, estão os nomes de Raul Sampaio e Zé “do” Tamborim (o mesmo Zé Tamborim que Chico incorporava nos tempos da TV Rio). A famosa música-tema que o acompanhou por décadas em seus programas da televisão também leva a sua assinatura, ainda que seu nome não apareça: o “Hino ao músico” é oficialmente de Chocolate e Nancy Wanderley, mas Chico afirmava ser o autor da letra da composição, gravada pelo Trio Irakitan em 1957 e interpretada pelo mesmo grupo vocal, mais Eliana Macedo, no filme “Rio fantasia”.

playlist abaixo traz, além de alguns títulos já mencionados, outros desta fase inicial de Chico como autor musical. São 25 fonogramas, entre eles “Quixeramobim” (com Oscar Belandi), “Quem me chama mentiroso” (com Meira), “Mão na mão” (com Hianto de Almeida – samba pré-Bossa Nova, com um tiquinho de malícia na letra), “Vou pensar no seu caso” e “Assim assim” (ambas também com Hianto), “Sem você, pra quê?” (com Sylvia Telles), “Dia dos Pais” (vigoroso baião de Luiz Gonzaga, cujo texto, um dos mais fortes e tocantes de Chico, traz uma mensagem bem triste), “Não bula comigo” (outra com Hianto) e “Amor de nordestino” (com Paulo Tito), com frases bem-humoradas que remetem às das melhores produções de Gordurinha. Estas gravações, como diria Lingote, vão batê pá tu que o Chico Anysio da MPB não deve nada aos múltiplos Chicos Anysios que brilharam em outras manifestações da arte brasileira. E isso não é mentira, Terta!

 

Foto do Atelier Allit / Coleção José Ramos Tinhorão / IMS

 

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