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O samba em primeira pessoa: era uma vez a obra-prima do centenário Zé Kéti

Pedro Paulo Malta

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Entre os temas recorrentes em letras de sambas, um dos mais comuns é justamente o próprio samba. “Negro forte destemido” para Nelson Sargento; “companheiro inseparável de tradição” para Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola; de “grande poder transformador” para Caetano Veloso; e amigo íntimo para Paulinho da Viola: “Se fico sozinho ele vem me socorrer”. Outro grande sucesso nesta galeria autorreferente é “A voz do morro”, no qual é o próprio samba que afirma, em primeira pessoa, sua nobreza à brasileira (“Eu sou o rei dos terreiros”) e também a sua procedência: “Sou natural aqui do Rio de Janeiro.” 

Manifesto consciente, sim senhor, de seu compositor: o grande Zé Kéti, cujo nome é festejado neste dia 16 de setembro de 2021, quando completam-se exatos cem anos de seu nascimento, em Inhaúma, bairro da zona norte do Rio de Janeiro.

“Para mim ‘A voz do morro’ é o padrão, o pai de todos esses sambas”, afirma o compositor e escritor Nei Lopes, autor do livro “Zé Kéti: o samba sem senhor”, publicado no ano 2000 pela editora Relume Dumará. Para ele, a obra-prima de seu biografado é uma das respostas nacionalistas ao crescimento do repertório estrangeiro no país. “Já no começo do século 20, quando a indústria fonográfica vem de fora e se estabelece no Brasil, a música estrangeira já estava por aqui. Mas tem um momento em que há uma saturação desse domínio e os sambistas começam a se ressentir disso. Acredito que venham daí esses manifestos.”

Nei Lopes se refere à década de 1950, quando “Rock around the clock" (Freedman e DeKnight) ganhou as paradas de sucesso no mundo todo com Bill Haley e Seus Cometas. Lançada nos Estados Unidos em 1954, só no ano seguinte ela estourou, alcançando o topo da lista de músicas mais tocadas da revista Billboard. Aqui no Brasil, a febre começou em 1955, embalada por duas gravações: primeiro a original, de Bill Haley (em disco da Decca), e depois uma nacional, lançada no inglês impecável da cantora Nora Ney.

Curiosamente, coube ao marido dela, Jorge Goulart, fazer a primeira gravação de “A voz do morro”, lançada em disco no mesmo mês (novembro de 1955) e pela mesma gravadora (a Continental) da cantora. No selo do disco 17197, o crédito para o acompanhamento da gravação histórica do samba de Zé Kéti – Vero e Sua Orquestra – traz o pseudônimo que o maestro Radamés Gnattali usava para os trabalhos que fazia com sambas, choros e outros gêneros populares. Codinome que Radamés bolou a partir do nome de sua esposa, a pianista Vera Bieri, e que retrata um tempo em que música popular não era ambiente para a gente da música de concerto.

Nada mal para aquele samba lançado meses antes na quadra da União de Vaz Lobo, escola de samba localizada no pé do Morro do Juramento, na zona norte do Rio de Janeiro. Era lá, no terreiro da tradicional (porém modesta) agremiação de cores azul e rosa, que Zé Kéti vinha lançando suas composições após um desentendimento com a sua Portela. Mesmo assim, alguns amigos portelenses ouviram “A voz do morro” em primeira mão, quando ainda estava sendo feito.

“Eu fui um dos primeiros a ouvir esse samba”, conta o compositor Monarco. “Nós vínhamos no trem juntos, às oito e pouco da noite: eu, Candeia, Zé Kéti, Chico Santana... Um cantando uma primeira pro outro. Então ele cantou isso e eu disse: ‘Ih, Zé Kéti. Tá bonito!’” Nesta primeira audição, os últimos versos da primeira parte eram diferentes da forma final do samba: 

Sou eu quem leva a alegria...
Para milhões de brasileiros!

“Vários dias depois”, prossegue Monarco, “ele encontrou comigo e disse: ‘Eu mexi ali num negócio! Vê quê que você acha.’ E aí cantou pra mim o samba da forma como ficou, com esses corações que ele botou, deixando o samba ainda mais bonito. Ou seja, com esse enfeite que ele criou, o samba rendeu ainda mais!”

O que ninguém podia imaginar – nem Monarco, nem os foliões da União de Vaz Lobo – é que “A voz do morro” viraria tema de abertura de um dos filmes mais badalados naquele ano de 1955: “Rio, 40 graus”, com o qual o cineasta Nelson Pereira dos Santos fazia sua estreia, inovando ao trazer para o cinema a realidade dos morros cariocas. Recém-chegado de São Paulo, Nelson procurava um compositor que fosse “bem carioca” para compor as músicas do longa-metragem e foi pedir uma indicação ao jornalista policial Vargas Júnior, que então fez a ligação com Zé Kéti, que assim contou ao jornalista Sérgio Cabral, como se lê no livro “As escolas de samba do Rio de Janeiro” (Editora Lumiar, 1996).

“Cantei ‘A voz do morro’ pra ele, naquele bar em frente à Associação Brasileira de Imprensa, o Vermelhinho”, relembra Zé Kéti. “Ele gostou e me apresentou ao Nelson Pereira dos Santos. Fiquei como ator, assistente de câmera e compositor do filme ‘Rio, 40 graus’. Sei que a música não era de carnaval, mas acabou estourando no carnaval e me deu uma nota muito boa na época: Cr$ 110,00."

Durante as filmagens de “Rio, 40 graus”, toda a equipe viveu reunida em um apartamento perto da Praça da Cruz Vermelha, nas imediações do bairro carioca da Lapa: Nelson, Zé Kéti (que levou a família), o ator Jece Valadão, o fotógrafo Hélio Silva e outros. Dessa convivência surgiu não só uma grande amizade (depois compadrio) entre o cineasta e o sambista: foi a partir das histórias contadas por Zé que Nelson criou seu filme seguinte, “Rio Zona Norte”, que sairia em 1957 tendo o sambista novamente como ator e compositor – de “Malvadeza Durão”, “O samba não morreu” e outras músicas.

Um detalhe pitoresco sobre “Rio, 40 graus” foi a proibição inicial da censura da época, alegando que o nome do filme não condizia com a verdade, afinal, segundo o censor, “a média da temperatura do Rio nunca passou dos 39,6 °C”. A controvérsia acabou dando mais visibilidade ao longa, que no fim das contas incomodava a determinados setores da sociedade por mostrar a realidade dos mais pobres – no caso, cinco meninos vendedores de amendoim que transitam por cartões postais da cidade, como a Praia de Copacabana, o Pão de Açúcar e o Maracanã.

Mas impacto mesmo foi o que o público viu na cena de abertura do longa, que deveria estrear em setembro de 1955, mas só estreou em março do ano seguinte: o samba de Zé Kéti tocado em grande arranjo orquestral de Radamés Gnattali enquanto um letreiro apresenta o filme, aplicado sobre lindas imagens aéreas do Rio: “A Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro em Rio, 40 graus” (assista aqui). Primeiras impressões do filme que marca a estreia de Nelson Pereira dos Santos e é um dos precursores do Cinema Novo, na década seguinte.

A essa altura, “A voz do morro” já tinha estourado como um dos grandes sucessos do carnaval de 1956, graças à ampla execução que suas primeiras gravações tiveram nas emissoras de rádio: a de Jorge Goulart (já citada) e a dos Vocalistas Tropicais, lançada em disco também pela Continental em novembro de 1955. Em janeiro, o samba de Zé Kéti encabeçava a lista dos “Discos mais vendidos”, segundo o jornal Correio da Manhã (08-01-56), à frente inclusive de “Rock around the clock”.

No mês seguinte, era o próprio Zé Kéti quem comemorava as vendagens, como disse numa visita à redação do próprio Correio da Manhã. “Até semana passada haviam sido vendidos mais de 70 mil discos somente nesta capital”, saudou o compositor, conforme o jornal, na edição de 08/02/1956. “Em São Paulo e outros centros o samba está penetrando firmemente.”

Quem se recorda bem desta época é Adilson Soledade, que, aos 81 anos, ainda vive na mesma casa em Bento Ribeiro (bairro da zona norte carioca) de onde saía para rodar a cidade acompanhando o irmão mais velho e famoso. “Sabe o que ele fez com os primeiros direitos autorais que saíram da ‘Voz do morro’? Era dinheiro à beça, viu?”, avisa o funcionário de cartório aposentado. “Ele primeiro perguntou a meu pai se queria alguma coisa e depois deu um cordão de ouro à minha mãe. Aí ele juntou um monte de gente – amigos, jornalistas... – e levou pra jantar em São Paulo. Todos de avião, com passagem paga, imagina só! Claro que o dinheiro acabou, né?”

O samba continuou sendo um dos assuntos preferidos de Zé Kéti, que emplacou outras composições nesta temática em discos de 78 rotações. Como “Samba rasgado”, que fez em parceria com o portelense Jaime Silva (autor de “O pato”) e foi gravado em abril de 1956 por Marlene, a mesma que lançou “Quero sambar” (de Zé Kéti, sem parceiro) em novembro de 1957. Já em agosto de 1956 saiu a primeira gravação – na voz de Jorge Goulart – de “O samba não morreu”, parceria de Zé com Urgel de Castro que seria regravada algumas vezes com o nome de “Samba meu”.

Já o samba “A voz do morro” recebeu mais sete vezes regravações em 78 rotações, todas elas lançadas ao longo de 1956. Entre elas há destaques como os vozeirões de Hélio Chaves e do colombiano Carlos Ramírez, além do arranjo vocal do Trio Itapoã e gravação instrumental feita pela orquestra de Luciano Perrone – baterista das orquestras e conjuntos de Radamés Gnattali. Já entre as regravações de “A voz do morro” lançadas em LP, ficaram muito populares as de Jair Rodrigues, Luiz Melodia e do próprio Zé Kéti.

Somam-se ao sucesso de “A voz do morro” outros sambas emblemáticos de sua autoria, como “Mascarada” (com Elton Medeiros), “Diz que fui por aí” (com Hortêncio Rocha), “Nega Dina” e as engajadas “Opinião” e “Acender as velas”, além da marcha-rancho “Máscara negra” (com Hildebrando Pereira Matos), grande sucesso de 1967 e desde então muito cantada em todos os carnavais.

“Zé Kéti conheceu o sucesso em vida, o que é muito importante, mas ainda acho ele bastante injustiçado, sabe?”, questiona Monarco. “Por que ainda não puseram o nome dele numa praça, numa rua, num parque da cidade? É o mínimo que se pode fazer por alguém que lutou tanto pelo samba e pelos sambistas. Graças a ele todo mundo canta que o samba é ‘a voz do morro’, ‘o rei dos terreiros’. E que é natural daqui, do Rio de Janeiro.”

Clique aqui para acessar uma playlist com todas as composições de Zé Kéti lançadas em 78 rotações.

Foto:  Coleção José Ramos Tinhorão / IMS


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