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O violão praieiro e três sambas buliçosos: novidades de Caymmi há 80 anos

Pedro Paulo Malta

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Quem abrisse um jornal brasileiro no começo da década de 1940 por pouco não sentia o calor e o cheiro de pólvora dos combates da Segunda Guerra Mundial. Como os leitores do Diário da Noite, que ao lerem a primeira página do dia 24 de junho de 1941 ficaram por dentro das últimas notícias sobre os confrontos: como o embate entre alemães e russos às margens do Rio Dniestre, no leste europeu. O naufrágio do navio português Ganda, torpedeado na costa da África por um submarino de procedência desconhecida. E a posição neutra do Brasil, confirmada na véspera pelo presidente da República Getúlio Vargas numa entrevista ao próprio periódico.

Os leitores que chegaram à página sete souberam também da estreia de Dorival Caymmi na Rádio Tupi, marcada para o dia seguinte, às 21h30. Com meia hora de duração, o “programa excepcional preparado pelo cantor dos mares da Bahia” teria o repertório com “aspecto bem popular”, incluindo “belíssimas e inéditas composições sobre a vida dos praieiros da Bahia”. 

Aos 27 anos, Dorival Caymmi era conhecido dos ouvintes de rádio desde 1938, quando, depois de trocar sua Salvador pelo Rio de Janeiro (em abril daquele ano), fez as primeiras cantorias na Rádio Nacional. Pouco depois começou a ter suas composições lançadas em disco e os primeiros sucessos: “O que é que a baiana tem” (lançada em 1939, num dueto de Carmen Miranda com o próprio Dorival que já foi assunto de um outro post), “O samba da minha terra” (gravada pelo Bando da Lua em 1940) e “O mar”, também de 1940, quando foi lançada pelo compositor com arranjo orquestral de Radamés Gnattali.

“Entre outros números de Dorival Caymmi no seu programa de estreia”, informou o Diário da Noite, “destaca-se ‘A jangada voltou só’, canção praieira, ‘Requebra que eu dou um doce’ e ‘Você já foi à Bahia’, melodias simples e bonitas que o público ainda não conhece”, descreve o texto do jornal, antes de informar que “o querido artista folclórico” vinha trabalhando no repertório das audições seguintes, quando apresentaria músicas como “É doce morrer no mar”. 

Esta última, feita em parceria com o escritor baiano Jorge Amado, seu grande amigo, já era conhecida dos ouvintes de rádio pelo menos desde março de 1940, quando o jornal O Imparcial noticiou que a Rádio Ipanema tinha promovido – em 26-03-1940 – a primeira audição da música, descrita como “uma radiofonização do romance de Jorge Amado ‘Mar morto’, com música de Dorival Caymmi e colaboração vocal de Renato Braga, Leonora Amar, coro e regional de Mário Silva.”

A composição de “É doce morrer no mar”, desta mesma época, teria nascido na casa do pai de Jorge Amado, no bairro carioca de Vila Isabel, como Caymmi contou em seu livro “Cancioneiro da Bahia” (Martins Editora, 1947):

“Foi num dia feliz que nasceu a melodia desta canção. Estávamos vários amigos – entre os quais os inesquecíveis Erico Veríssimo e Clóvis Amorim – reunidos em casa do coronel João Amado de Faria – a quem eu tanto queria – para um daqueles almoços. Em meio à festa e ao calor da amizade compus a toada sobre um tema de ‘Mar morto’, romance dos mestres de saveiro da Bahia. Na mesma hora, Jorge acrescentou alguns versos aos publicados no romance, completando a letra.”

A primeira gravação, no canto grave e choroso de Caymmi, saiu em outubro de 1941, num 78 rotações da Columbia que trazia no lado B a gravação original de “A jangada voltou só” (também dele, mas sem parceiro), outra canção praieira sobre a faceta trágica da vida dos pescadores que ele conhecera na Bahia, antes de se mudar para o Rio.

Além das composições inéditas, outra novidade daquelas duas gravações – ambas feitas em 3 de outubro de 1941 – era o acompanhamento. Em vez dos habituais conjunto regional ou orquestra, era o próprio Caymmi se acompanhando ao violão, como faria tantas outras vezes dali pra frente, inclusive no famoso dez polegadas “Canções praieiras”, lançado pela Odeon em 1954 (ouça aqui).

Outras inéditas de Caymmi saíram em disco no mesmo mês de outubro de 1941, quando a mesma Columbia pôs no mercado um 78 rotações trazendo as primeiras gravações de dois sambas buliçosos do compositor baiano: “Requebre que eu dou um doce” e “Você já foi à Bahia”. No caso deste último, é digna de nota a popularidade instantânea alcançada pela pergunta que abre o samba (e dá nome a ele), que virou expressão de uso corrente na imprensa sempre que o assunto era a terra de Caymmi. 

Assim, foi com o nome de “Você já foi à Bahia” que estreou, no dia 30 de dezembro de 1941, no Theatro Recreio (Centro do Rio), uma revista carnavalesca da Companhia Walter Pinto com texto de Freire Júnior. O mesmo nome foi dado ao grande baile de carnaval realizado pelo Clube de Regatas Vasco da Gama em fevereiro de 1942.

Sem contar o cinema: em julho de 1944, foi a vez da composição de Caymmi dar nome no Brasil a um longa de animação dos estúdios Disney: “The three caballeros”, que tem como tema algumas viagens do Pato Donald – entre elas uma à Bahia, ciceroneado pelo papagaio Zé Carioca. Curiosamente, o samba-título não é ouvido nos 71 minutos da película, nem mesmo quando Aurora Miranda aparece caminhando pelas ruas de Salvador, cantando “Os quindins de iaiá” (Ary Barroso), entre galanteios de Donald e Zé (veja a cena).

É possível que as investidas das aves fossem mais bem sucedidas se tivessem respondido à artista cantando o lado B do disco de “Você já foi à Bahia”: “Requebre que eu dou um doce”, o samba-cantada que, se hoje pode ser questionado à luz da “objetificação da mulher”, naquela época não passava de um elogio sedutor ao bailado da “moreninha da sandália do pompom grená”. O mesmo vale para “Balaio grande”, samba de duplo sentido de Caymmi (co-assinado por Oswaldo Santiago) lançado em 1941, na voz do próprio compositor.

De volta ao disco de lançamento de “Você já foi à Bahia” e “Requebre que eu dou um doce”, vale destacar a interpretação dos Anjos do Inferno, grande conjunto vocal da música brasileira, em atividade desde 1934. No disco da Columbia (gravado em 27-09-1941), o acompanhamento é creditado aos próprios integrantes do grupo, identificados apenas pelos pré-nomes no selo do disco: Léo (Villar, voz), Harry (Vasco de Almeida, pistão nasal), Moacir (Bittencourt, violão), Alberto (Paz, pandeiro), Felipe (Brasil, violão) e Aluísio (Ferreira, violão-tenor). 

Depois deste primeiro disco com composições de Dorival Caymmi, os Anjos do Inferno seriam responsáveis pela lançamento de outros sucessos do baiano, como os sambas “Vatapá”, “Rosa morena” (ambos de 1943), “Acontece que eu sou baiano”, “Vestido de bolero” (ambas de 1944) e “Doralice” (com Antônio Almeida, em 1945), entre outros.

Foto: Coleção José Ramos Tinhorão / IMS

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