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Os 110 anos de Ciro de Sousa, um dos 'inventores' do telecoteco

Pedro Paulo Malta

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Onomatopeia do som do tamborim, o telecoteco é palavra corrente na história do samba.

Para alguns remete a um grande sucesso de Zeca Pagodinho no ano 2000 (o samba “Maneco telecoteco”, composição de Marques e Roberto Lopes). Outros talvez se recordem de um disco histórico dos cantores Ciro Monteiro e Dilermando Pinheiro: “Telecoteco Opus nº 1”, lançado pela Philips em 1966. Seja como for, a palavra designa também – e sobretudo – um tipo específico de samba: que não é de carnaval, muito menos de enredo. Menos corrido, ele é puladinho, requebrado, aparentado do choro e muitas vezes repicado com pausas e breques. Prato cheio para pés-de-valsa e cantores de bossa, há quem diga que ele nasceu no Café Nice, na virada entre as décadas de 1930 e 40.

É evidente que gênero musical não “nasce”. Não “brota” ou “surge”, assim, por geração espontânea. E que é inegável, por exemplo, o telecoteco da música de Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth, entre outros nomes do século 19. Mas o fato é que o samba de telecoteco foi um dos projetos burilados conjuntamente entre xicrinhas e caixas de fósforos no lendário café do Centro do Rio. Entre seus criadores está um dos grandes compositores de seu tempo: Ciro de Sousa, carioca de Realengo, onde nasceu há 110 anos (30-12-1911) e de onde se mudou, ainda na infância, para a região do Caju, onde foi criado. E se alguém ainda não entendeu o que é o tal “telecoteco”, que ouça a playlist criada especialmente para este texto.

“Nessa fase do telecoteco vieram o Wilson Batista, eu e o Antônio Almeida”, conta Ciro de Sousa no depoimento para a posteridade que gravou no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (19-02-1968). “Formamos um trio e começamos a lançar músicas desse jeito assim mais buliçoso, né? Curiosamente, alguns músicos nos chamavam pra saber como era esse ritmo sincopado. E assim foram surgindo sambas desse jeito por outros compositores, que espontaneamente aderiram ao movimento.”

O plano logo resultou em sambas “buliçosos”, a começar por uma parceria dele com Wilson Batista, “A mulher que eu gosto”, que, segundo o biógrafo de Wilson, Rodrigo Alzuguir, foi feito no próprio Nice: Ciro chegou com a primeira parte e a segunda veio na sequência, criada a quatro mãos. A primeira gravação, feita por Ciro Monteiro, saiu em junho de 1941, dois meses antes de Aracy de Almeida lançar no mercado “Ganha-se pouco mas é divertido”, outro da parceria “com esse fabuloso compositor que é o Wilson Batista”, como disse Ciro de Sousa ao MIS.

Também de agosto de 1941 é a gravação original – com as bossas do cantor Vassourinha – de outro samba que se tornaria um clássico desta leva: “Juraci”, feito por Ciro de Sousa com Antônio Almeida. Da mesma dupla é o samba “Chô chô”, que se hoje não é tão lembrado quanto o outro, na época do lançamento – dezembro de 1943, gravado pelos Anjos do Inferno – resultou em boas vendagens de discos e partituras. “Me deu uma renda que atendeu perfeitamente as despesas com o nascimento do meu primeiro filho, Marcus Vinicius”, contou Ciro ao MIS. “Ele nasceu e quem pagou a despesa foi ‘Chô chô’.”

Geraldo Pereira, que vinha sincopando sambas desde 1940 (com “Acabou a sopa”) e se tornaria o mestre do gênero, foi um que embarcou no bonde do telecoteco: é dele com Ciro de Sousa “Conversa fiada”, que o cantor Déo lançou em 1945. Já com Augusto Garcez, Ciro divide a autoria de “Beijo na boca”, samba que foi pro disco em 1940, na voz do xará Monteiro.

Voz feminina

Tudo no ritmo puladinho que Ciro se acostumou a ouvir desde a infância, em casa, nas rodas de choro que eram promovidas por seu pai, Belarmino de Sousa – flautista considerado (foi professor de Benedito Lacerda) e mestre da banda do Arsenal de Guerra, onde trabalhava como operário. “O choro me calou profundamente: daí a facilidade que eu tenho de fazer músicas assim”, contou Ciro, que já em 1937 fez “Marido da orgia”, sucesso na voz de Aracy de Almeida (e depois Cristina Buarque) inspirado numa história verídica.

“Eu estava na minha casa no Caju e uma senhora visitava minha mãe, reclamando do marido, boêmio tremendo, inveterado, que chegava tarde e fazia ela levantar e fazer bifes, ovos”, relatou Ciro no depoimento ao MIS. “Era de tal forma a reclamação que até as rimas ela dava! Imagina você que eu estava no banho. E ouvindo as palavras dela fiquei numa aflição tremenda! Desliguei a água e fui escrevendo as palavras dela com batom na parede do banheiro. Tenho uma vergonha tremenda, pois esta senhora devia ser minha parceira.”

Estava aberto o filão de sambas na voz feminina, no qual Ciro prosseguiu com outros telecotecos. Como “Vai trabalhar”, samba de 1942 no qual Aracy de Almeida dá voz à pequena já cansada de sustentar o marido boa-vida. Já em “Comigo não”, também de Ciro sozinho, é a cabrocha comprometida quem alerta o malandro tentador sobre o namorado que é “rapaz forte e malcriado”.  Caso o aviso não tenha surtido efeito o resultado é “Duas mulheres e um homem”, samba co-assinado por Jorge de Castro lançado por Isaurinha Garcia em 1943.

Pequena Notável

O escrete de divas se completa com Carmen Miranda, de quem era amigo de todos os momentos. “Ela chegava altas horas, tocava a campainha e pedia a minha mulher: ‘Você poderia me emprestar o seu marido pra nós darmos um passeio?’”, relembra, no depoimento ao MIS. “Corríamos a Barra da Tijuca conversando, cantando, mostrando música. Quem dirigia era o Sinval Silva, chofer dela.” Mesmo assim, foram apenas duas as composições dele lançadas no canto serelepe de Carmen: o choro “A nossa vida hoje é diferente”, de 1939, e o samba-diálogo “Onde é que você anda”, que ela gravou em 1938 com o aspirante a cantor (na verdade apresentador do Cassino da Urca) Fernando Alvarez.

O próprio Ciro de Sousa só tinha iniciado a carreira de compositor poucos anos antes. “Foi no fim de 1935. Eu estava no (Café) Nice e apareceu na mesa o Moreira da Silva, que veio com uma ideia”, relatou ao MIS, trazendo à tona a história do samba “A B C do amor”, lançada em disco em 1936, por Aracy de Almeida. “Ali mesmo, num pedaço de papel eu fiz música e letra.” Apesar da primazia apontada pelo compositor, a primeira música de sua autoria na Discografia Brasileira é “Olha pro céu”, marcha gravada em novembro de 1934, por Jaime Vogeler.

Até que veio o primeiro sucesso de Ciro de Sousa, surgido no Morro de Mangueira, onde alguns compositores faziam uma roda de samba em frente a uma birosca, diante do olhar atento do rapazinho que ajudava o dono do estabelecimento e atendia por Babaú. “Um dia ele colocou no meu bolso da camisa um papelucho e disse assim: ‘Ah, dá uma olhada pra mim nisso daí, quem sabe isso pode dar música’”, contou Ciro em entrevista ao pesquisador Luís Fernando Vieira, num trecho aproveitado no podcast “Música em 78 rotações” (clique aqui para ouvir no Spotify). O bilhete, guardado por Ciro em sua gaveta de esboços, só foi desamassado dali a dois ou três meses: gostou da palavra “miserê”, entre outros termos incomuns, e só então deu forma a “Tenha pena de mim”.

Censura

Só que o samba, que originalmente se chamaria “Ai, ai, meu Deus”, acabou esbarrando na censura do Governo Vargas, que implicou com o Todo-Poderoso no título. “Deus era censurado, por incrível que pareça”, relembrou Ciro ao MIS, lamentando que o nome da música tenha sido imposto no fim das contas. “O censor disse: ‘Tenha pena de mim’ é um título bom, interessante. Tem que ser esse.” E assim foi lançado em novembro de 1937 por Aracy de Almeida, entrando para o rol do que o então ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra definiu como “obras musicais com aquele sentido de esquerda violentíssimo.” Ciro de Sousa chegou a ver um ofício em que Dutra – que seria eleito presidente da República em 1946 – reclamava de “Tenha pena de mim”: “Aquilo devia ser obra de um comunista!”

Curiosamente, nem o próprio Getúlio era tão severo com as composições de Ciro de Sousa – nem mesmo quando a música fazia alusão a ele, como a divertida “Palacete no Catete”, parceria com Herivelto Martins que satirizava a sucessão presidencial de 1945 e foi gravada por Francisco Alves. “Quando essa letra bateu na censura quase deu cadeia”, afirmou Ciro, que precisou apelar a um conhecido que tinha acesso a Vargas. “Ele levou a letra e o presidente riu muito: disse que era uma charge muito bem feita, que não o atingia”, reportou. “Aprovou o samba do próprio palácio.”

“Conversa para estrangeiro”, que Dircinha Batista lançou em 1939 e foi considerada pela censura ofensiva aos outros países, gozava de prestígio ainda maior com Vargas. Era um dos números que ele pedia a Dircinha para cantar sempre que ela se apresentava nos eventos presidenciais. “Uma vez me felicitou, assim: ‘Isso que é música popular brasileira. Você tem um nacionalismo espontâneo!’, gabou-se ao MIS.

É possível que Getúlio já conhecesse, por exemplo, o samba “Sete horas da manhã”, composição só de Ciro que seguia a mesma cartilha de “O bonde de São Januário” (Ataulfo Alves e Wilson Batista), do ano anterior, e outros sambas anti-malandragem. Criado a partir de seu próprio cotidiano no Arsenal de Guerra (onde se empregou, a exemplo de seu pai), este samba – lançado por Patrício Teixeira em 1941 – foi um raro êxito de carnaval na obra de Ciro de Sousa. “A característica interessante desta música é que é a única que fala no subúrbio da Leopoldina”, destaca o autor do sucesso, que no fim das contas “empolgou o povo de lá, de onde desciam blocos imensos cantando só esse samba”.

Carnaval paulista

Ciro emplacou outro sucesso carnavalesco em São Paulo, onde viveu entre 1947 e 1951, como representante local da União Brasileira de Compositores. Este sucesso foi “Vaca malhada”, lançado em disco na voz do cantor Hélio Sindô, que divide com Ciro a autoria da música, muito cantada na folia de 1951. Sua atuação mais intensa como dirigente da UBC coincidiu com o afastamento gradativo da atividade de compositor, à medida que o jabá – apelido do pagamento que passou a ser feito a programadores de rádio e TV – ganhou espaço no rádio e na TV.

“Hoje é uma coisa pavorosa”, decretou na entrevista ao MIS, já em 1968, alertando para uma prática que se tornaria cada vez mais corriqueira: “Você pode ter a melhor música do mundo que se você não comprar os programas de rádio você não tem a menor chance.” Em seguida, anunciava o próprio retiro: “Um compositor de 30, 35 anos, não pode em absoluto aceitar uma situação dessas”, lamentou Ciro de Sousa, que ainda experimentou o sucesso em 1961, mas no novo ritmo da moda: o “Rock do ratinho”, que o palhaço Carequinha gravou com acompanhamento da Bandinha de Altamiro Carrilho.

O telecoteco de Ciro de Sousa já não tinha vez nos meios de comunicação, mas seguiu vivo na música popular brasileira. E mesmo após a morte de seu principal cultor (aos 83 anos, em 6 de janeiro de 1995) continuou nas rodas, gafieiras e salões, enquanto houvesse um samba marcado no tamborim.

Foto: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional / Revista Cinearte, edição de 01-01-1938

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