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Herivelto Martins, 110 anos: as crônicas de morro e dores-de-cotovelo da versatilidade em pessoa

Pedro Paulo Malta

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Pode ser que alguns se lembrem dele como o ex-marido de Dalva de Oliveira, a grande cantora, de quem se separou com ampla cobertura das revistas de fofoca. Que muitos se refiram à série que a TV Globo exibiu em 2010, com Adriana Esteves e Fábio Assunção nos papéis principais. Ou até que outros recordem uma ou outra música de sua autoria – seja uma dor-de-cotovelo, um samba de carnaval ou um samba-choro ambientado numa favela carioca.

Menos provável é que deem a ele o destaque que merece na galeria dos grandes sambistas, como fez o crítico Tárik de Souza na série “História da Música Popular Brasileira”, lançada em 1983 pela Editora Abril: “Herivelto Martins é um talento tão extraordinariamente versátil, criador de uma obra tão variada que parece composta por vários autores.”

Nascido há 110 anos (30-01-1912), no vilarejo de Rodeio (hoje Engenheiro Paulo de Frontin, município localizado a 85 km do Rio de Janeiro), Herivelto de Oliveira Martins desde cedo viveu perto das artes. Seu pai, Félix de Oliveira Martins, sustentava a família como ferroviário, mas gostava mesmo era dos espetáculos teatrais que montava nas horas vagas, tendo no elenco os próprios filhos (seis ao todo) de sua união com Dona Carlota. Herivelto tinha cinco anos quando se mudaram para Barra do Piraí (RJ), onde, além da escola e das montagens do pai, passou a frequentar a banda local. Até que em 1931, com a família já morando em São Paulo, tomou seu rumo para o Rio de Janeiro.

Tinha 19 anos e vivia num quarto no bairro do Estácio quando arranjou trabalho numa barbearia na subida do Morro de São Carlos. Já atuava como ritmista do Conjunto Tupi (liderado por J. B. de Carvalho) quando, no vaivém dos novos vizinhos, inspirou-se para compor seus primeiros sucessos, lançados em 1937: “Acorda, escola de samba”, que saiu na voz de Silvio Caldas, e “Seu condutor”, rara marchinha de sucesso em sua obra, feita para um bloco carnavalesco local e gravada em disco pela dupla Alvarenga e Ranchinho. 

Também do Estácio era Nair, a namorada que trocou Herivelto por outro e acabou retratada como “rolinha triste” no samba “Um caboclo abandonado”, de 1936. “O que eu queria dizer não está na primeira parte, que não diz nada, mas na segunda”, contou Herivelto ao programa Ensaio (TV Cultura, 1990) sobre este que foi mais um samba lançado em disco por Sílvio Caldas – principal intérprete de sua obra nos anos 1930, assim como Francisco Alves (nos 1940) e Nelson Gonçalves (na década de 1950).

Isso, claro, além do Trio de Ouro: mais uma criação de Herivelto Martins nos anos 1930, formado inicialmente por ele com Nilo Chagas e Dalva de Oliveira – sua companheira entre 1937 (marco inicial do Trio) e 1947. Em suas várias formações, o conjunto é de longe quem mais lançou composições de sua autoria: só em discos de 78 rotações foram 105 gravações, entre 1938 e 1963.

De todas essas nenhuma fez mais sucesso do que o samba “Ave Maria no morro”, que saiu em 1942, mas foi composta em 1940. “De início ela só tinha o verso ‘E quando o morro escurece elevo a Deus uma prece’, inspirado numa cena que testemunhei, uma tarde, numa capelinha, com um grupo de pessoas rezando”, conta o compositor no perfil biográfico “Herivelto Martins: uma escola de samba”, de Jonas Vieira e Natalício Norberto (Ensaio Editora, 1992). “O verso ‘Sinfonia de pardais anunciando o anoitecer’ surgiu dos meus finais de tarde, na Praça Tiradentes, onde era comum a gente entrar pela noite jogando bilhar.”

Os olhos e a sensibilidade atenta às cenas do morro valeram outros sucessos a Herivelto, como o samba-choro “Meu rádio e meu mulato”, lançado em 1938 por Carmen Miranda. “Naquela época o rádio era uma raridade. No morro, então, um acontecimento”, conta o compositor no perfil biográfico. “Quem tinha um aparelho botava a maior banca.

Também ambientado no morro é o samba carnavalesco “Odete”, uma parceria com Dunga de 1944 que, segundo Herivelto (no programa Ensaio), foi feita no sacolejo de uma viagem de bonde. Este quem lançou foi Francisco Alves, o mesmo que em 1945 levaria outro nome de mulher a cair na boca dos foliões: “Isaura” – sucesso que seria renovado em 1973, na suavidade com que foi regravado por João Gilberto e Miúcha (ouça aqui). Neste samba Herivelto conta que a ideia partiu do parceiro, Roberto Roberti: “Ele me trouxe o estribilho, do qual gostei muito”, contou no depoimento a Jonas Vieira e Natalício Norberto. “A introdução é minha, executada pelo Abel Ferreira, depois de um ensaio no meu carro.”

Na galeria de tipos femininos em ritmo de samba há também outras crônicas divertidas de um Herivelto queixoso – porque se sente maltratado (“Vaidosa”, de 1947, com Artur Moraes), impaciente com a preguiça alheia (“Nega manhosa”, de 1957) ou desconfiado da companheira que “deu agora pra lavar roupa pra fora” (“A lavadeira”, de 1944). Sem contar a pequena que “acende tanta vela, não sei pra quê, segunda-feira”, como contou em 1949, na letra de “Treze de ouro” (com Marino Pinto).

Herivelto também dedicou sambas a seu morro mais querido. Fosse na lembrança de um amor (como “Lá em Mangueira”, de 1943, com Heitor dos Prazeres), na nostalgia “dos tempos do Cartola” (como em “Saudade de Mangueira”, de 1954) ou no alerta de “Mangueira não”, outro de 1943: “Derrubem todos os morros / Derrubem meu barracão / Silenciar a Mangueira não!”

Feito em parceria com o ator Grande Otelo, este último é uma das crônicas da dupla sobre as obras que transformaram o Rio de Janeiro no começo da década de 1940: primeiro chorando o fim da “Praça Onze” (1942) e depois saudando o progresso em “Bom dia, Avenida” (1944). Outro reduto de samba a inspirar um sucesso de Herivelto foi “A Lapa” (1950), que entusiasmou o compositor numa noite em que este dirigia pelo bairro e viu que os boêmios estavam de volta aos bares de lá, como contou no programa Ensaio, relembrando a visita da família real da Bélgica ao Rio, em 1920: “Quando esteve o Rei Alberto, a Lapa era tão famosa que ele pediu pra ir lá, conhecer a boemia.”

Outro monarca que deu em samba foi o rei Carlos II, da Romênia, que após abdicar de seu trono, em 1940, veio viver no Copacabana Palace “sem nenhuma realeza ostensiva”, como descreve Abel Cardoso Junior em “Francisco Alves: as mil canções do Rei da Voz” (Revivendo, 1998). O tipo virou assunto na cidade e inspirou a composição de “Que rei sou eu”, sucesso de 1945 na voz de Francisco Alves, samba feito por Herivelto a partir de um tema que recebeu de Valdemar Ressurreição, seu parceiro nesta música. 

Já no contexto do desenlace (público e turbulento) com Dalva de Oliveira, compôs alguns de seus grandes sucessos românticos. Como “Cabelos brancos”, que começou a ser feita em São Paulo, depois que Herivelto foi a uma quitanda e ouviu uma senhora comentar sua separação – tema frequente nos jornais e revistas da época. “Me deu vontade de dizer: ‘Poxa, me respeitem! Respeitem pelo menos meus cabelos brancos’, que aliás eu não tinha ainda”, contou o compositor, que fez a segunda parte – a quatro mãos – com Marino Pinto, completando o samba, lançado em 1949, em gravação dos Quatro Ases e um Curinga.

Da mesma parceria é o samba-canção “Segredo”, que saiu em maio de 1947, na voz da própria Dalva, sem que o público imaginasse que ali estava um retrato da situação conjugal que viviam. Nesta composição, a primeira parte é toda de Herivelto e a segunda, do parceiro, feita a pedido de Dalva. “O Marino fez aqueles versos à minha revelia, mas ficaram tão bons, que aceitei imediatamente”, disse Herivelto, como se lê no livro “A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras – vol. 1”, de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello.

Mais explícito é “Caminhemos”, que Francisco Alves gravou em junho – e lançou em novembro – de 1947. Em seu perfil biográfico, Herivelto conta que esta composição foi “produto do clima adverso na minha casa, quando meu casamento com a Dalva começou a se deteriorar”. Isso num dia de 1946, quando, “na maior solidão, escondi-me numa saletinha do apartamento, peguei o violão e feri uma nota grave nas cordas, em lá menor. Era uma coisa que estava gritando dentro de mim, de desespero, que eu precisava botar pra fora”.

Se ainda havia alguma esperança no samba magoado (“Caminhemos, talvez nos vejamos depois...”), esta deu lugar a uma série de punhaladas de parte a parte. Dalva gravando sambas encomendados a compositores diversos – entre eles Marino Pinto (de quem Herivelto se afastou). E o ex-marido alvejando a cantora com petardos como “Caminho certo”, de 1950: “Eu deixei o meu caminho / E a culpada foi ela / Transformava o lar na minha ausência / Em qualquer coisa abaixo da decência”, cantou o Trio de Ouro já reformulado, com sua maior estrela substituída por Noemi Cavalcanti.

Neste samba, Herivelto assina a composição com seu principal parceiro na década de 1950: o jornalista David Nasser, com quem faria músicas como a pérola kitsch “Mamãe”, gravada em 1956 pelo dueto de Ângela Maria com João Dias. “Quando mostrei alguns versos dessa valsa ao David, como aquele que diz ‘avental sujo de ovo’, ele quase caiu para trás. Argumentou que o verso era muito feio para entrar numa música romântica”, relata Herivelto em seu perfil. “Mas eu fiz ver a ele que o verso retratava uma cena comum em todos os lares, era um fato cotidiano.”

Já no vozeirão de Nelson Gonçalves a dupla emplacou outras cenas, fossem ambientadas nas memórias de um marido saudoso – o do samba-canção “A camisola do dia”, de 1953 – ou num cassino, onde se dá o enredo do tango “Vermelho 27”, de 1956. Sucessos de Herivelto da fase pós-Dalva, que após a saída do Trio de Ouro se firmou como uma das vozes mais queridas da música popular brasileira – eleita rainha do rádio em 1951.

Herivelto, por sua vez, seguiu compondo, cantando e atuando em frentes múltiplas: foi presidente do Sindicato dos Compositores do Brasil e inspetor do Ministério do Trabalho – cargo público ao qual se dedicou após a demissão da Rádio Nacional, em 1º de abril de 1964, quando seu nome foi incluído numa lista de artistas “subversivos” da emissora. Casado com Lurdes Torelly, sua companheira desde 1952, viveu sua maturidade entre um sítio em Bananal (SP), onde reuniam-se filhos e netos, o centro espírita que mantinha em Realengo e o dia-a-dia pacato em sua residência, no bairro da Urca.

“Pouca coisa existe melhor no mundo que a Urca”, disse o veterano sambista ao Jornal do Brasil (01-02-1992), numa das muitas entrevistas que deu na época da chegada aos 80 anos – efeméride que lhe valeu uma “visita” da Estação Primeira de Mangueira, festejando a data com um minidesfile pela Rua Otávio Correa, onde morava. A homenagem, como outras que recebeu pelo aniversário, acabou valendo como uma despedida a Herivelto, falecido pouco tempo depois, de embolia pulmonar, em 17 de setembro de 1992.

Foto: Coleção José Ramos Tinhorão / IMS

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