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De ouro? Não! Na música brasileira, as sandálias que mais brilham são as de prata

Fernando Krieger

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Desde que surgiu a primeira gafieira e foram inventados os bailes de salão, as cabrochas vêm arrastando as sandálias “até gastar”, como observou Jorge Ben (hoje Benjor) em “Balança Pema”. Nesta faixa, presente em seu álbum de estreia, “Samba esquema novo” (1963), o Babulina promete à moça uma sandália de prata para que ela sambalançasse só pra ele. O objeto – tal qual o sapatinho de cristal da fábula – parece calçar com perfeição os pés das Cinderelas negras, morenas, louras, ruivas, asiáticas  que inspiram os/as poetas da MPB, já que aparece vez por outra em nosso cancioneiro: há composições com este título no compacto duplo “Sandália de prata”, de Gilberto Alves; no disco “Jongo Trio”, de 1972; no LP “Sandália de prata”, lançado por Renata Lú em 1976; e no álbum “Cante comigo”, de Roberto Savalla (1982).

 

Certa feita, quando Euterpe, musa da mitologia grega relacionada à música e à poesia, resolveu passear pelo Brasil usando uma sandália prateada, inspirou de cara três dos nossos maiores compositores. O resultado foi o lançamento quase simultâneo de dois sambas em fevereiro de 1942, há exatos 80 anos: “Sandália de prata”, de Pedro Caetano e Alcyr Pires Vermelho, na voz de Francisco Alves (Odeon 12108), e um clássico de Ary Barroso, “Isto aqui o que é”, por Moraes Neto (Odeon 12112). Gravados praticamente juntos, em dezembro do ano anterior, ambos trazem, em seus versos, uma referência ao calçado feminino que acabou se tornando uma espécie de fetiche no universo da nossa música popular.

 

 

Morena boa que me faz chorar / Põe a sandália de prata e vem pro samba sambar... Hoje super conhecido, “Isto aqui o que é” costuma receber, no entanto, pouca ou nenhuma atenção nas biografias de Ary Barroso. Ele próprio talvez não a julgasse uma de suas composições preferidas, pois não figurava entre as suas “dez mais”. Em entrevista ao jornalista Jurandir Chamusca, publicada na revista A Cigarra de novembro de 1955, instado a escolher “os seus melhores sambas”, Ary respondeu: “Vou à Penha”, “No tabuleiro da baiana”, “Morena boca de ouro”, “Caco velho”, “No rancho fundo”, “Faceira”, “Na Baixa do Sapateiro”, “Terra seca”, “Foi ela” e “Risque”. Sem dúvida uma bela lista – mas choca o fato de Ary ter deixado de fora simplesmente “Aquarela do Brasil”! Ou seja, “Isto aqui o que é”, que também não entrou na relação, está em ótima companhia!

 

A composição pertence à lavra dos chamados sambas patrióticos ou sambas-exaltação, dos quais “Aquarela do Brasil”, de 1939, é considerado o precursor, surgido antes mesmo da criação, em dezembro daquele ano, do Departamento de Imprensa e Propaganda (o famigerado DIP) da ditadura de Getúlio Vargas, que “atuava forte na música popular, proibindo músicas e estimulando os compositores a criarem ‘letras positivas’, exaltando a pátria, a família, o trabalho etc. Até então, os sambistas adoravam dizer que eram mesmo da orgia e que detestavam o trabalho”, lembra Sérgio Cabral em “No tempo de Ari Barroso” (Lumiar Editora, 1993).

 

Além da “Aquarela”, Ary faria outros sambas nesta linha, como “Brasil moreno” (parceria com Luiz Peixoto, 1941), o próprio “Isto aqui o que é” – Isto aqui, ô ô / É um pouquinho de Brasil, ioiô / Desse Brasil que canta e é feliz, feliz, feliz / É também um povo de uma raça / Que não tem medo de fumaça, ai ai / Que não se entrega não – e “Forasteiro”, gravado por Francisco Alves em dezembro de 1949 e lançado em maio de 1950, cuja letra de novo alude ao famoso calçado feminino: Olha só a mulata passando, arrastando a sandália de prata.

 

“Isto aqui o que é” recebeu algumas dezenas de gravações desde sua estreia em disco, e a letra acabou sofrendo algumas modificações, se compararmos com os versos apresentados por Moraes Neto na versão original: hoje se costuma escutar Isto aqui, ô ô / É um pouquinho de Brasil, iaiá; ou então: É também um pouco de uma raça; e na última parte: Morena boa que me faz penar... Elizeth Cardoso cantou é um pedaço do Brasil, ioiô, no disco “Elizethíssima”, de 1981. Entre as releituras mais famosas estão a dos Novos Baianos (LP “Farol da Barra”, 1978) e a de João Gilberto (álbum “Live at the 19th Montreux Jazz Festival”, 1986), que, além de dizer “bota a sandália de prata”, mudou o próprio nome da música: na contracapa do disco ela aparece sob um novo título, justamente... “Sandália de prata”.

 

O que causa uma tremenda confusão, pois, como visto, já havia algumas canções intituladas “Sandália de prata” na música brasileira, inclusive a pioneira: a de Alcyr Pires Vermelho e Pedro Caetano, nascida para a MPB praticamente no mesmo momento do clássico de Ary Barroso. Alcyr, compositor eclético, também foi um craque do samba-exaltação, tendo feito “Brasil novo” e “Paz e amor” (ambas com Saint-Clair Senna), “Canta, Brasil” (com David Nasser) – que abordamos neste post –, “Brasil, usina do mundo” (com João de Barro) e “Onde o céu azul é mais azul” (com João de Barro e Alberto Ribeiro). Já Pedro Caetano – autor de “O samba agora vai”, “Onde estão os tamborins” e “É com esse que eu vou”, entre outras – entendia não só de fazer música, mas também de calçados em geral e, claro, de sandálias, sendo ele o dono da Casa Pedro, famosa sapataria do Centro do Rio, localizada na esquina das ruas Uruguaiana e Sete de Setembro.

 

Em seu livro “54 anos de música popular brasileira – O que fiz, o que vi” (Pallas, 2ª edição, 1988), Pedro Caetano – lembrado neste post por ocasião dos seus 110 anos – recordou como nasceu a mais famosa canção de sua extensa parceria com Alcyr Pires Vermelho, que começou em 1940 e rendeu à música brasileira nada menos que 43 composições! Mas a sua história não bate com a cronologia dos fatos. Segundo o livro, em meados de 1942 Pedro e Alcyr fizeram um choro para Ademilde Fonseca que começava desse jeito: Pega uma cuíca ou um pandeiro, põe na mão de um brasileiro, vê como ele dá no couro. Estariam ambos no estúdio da Rádio Nacional dando os últimos retoques no choro quando Francisco Alves entrou. Ao escutar um pedaço da composição, que falava em sandália de prata nos pés da mulata, teria dito – com a “classe” que lhe era peculiar: “Vocês são burros mesmo. Não estão vendo que isso aí é um motivo excelente para um samba de Carnaval? Mudem logo esse negócio que eu mesmo posso gravar e vamos fazer sucesso”.

 

Alcyr teria então comentado com Pedro que o velho Chico não era bobo, que tinha “muito faro de sucesso” e que eles deviam aceitar a sugestão. Como ainda não tinham dito nada para Ademilde, não seria uma traição, concluíram. Então, ainda de acordo com Pedro Caetano, eles mudaram a letra, transformaram em samba e no dia seguinte apresentaram a nova versão para Chico, que gravou e estourou no Carnaval: Querendo ver / Pega logo no pandeiro, põe na mão de um brasileiro, vê como ele dá no couro / Pega uma sandália cor de prata, põe nos pés de uma mulata, vê como é que vale ouro.

 

O episódio pode de fato ter acontecido, mas a memória certamente pregou algumas peças em Pedro Caetano. Seu relato esbarra em duas evidências básicas: 1) o samba foi gravado em dezembro de 1941 e lançado em fevereiro de 1942, portanto não pode ter sido composto em meados deste ano; 2) ainda que o autor tenha se confundido e a data da criação da música tenha sido meados de 1941, Ademilde Fonseca não era conhecida nesta época; ela estrearia como cantora somente em setembro de 1942, em disco que continha “Tico-tico no fubá” (cuja história foi contada neste post) e “Volte pro morro”.

 

Oito dias após sua gravação, “Sandália de prata” debutou no rádio. O jornal A Noite de 10/12/1941 trazia um anúncio informando sobre uma apresentação de Francisco Alves na Nacional naquela data, às 21 horas, destacando a primeira audição pública do samba, com arranjo de Lyrio Panicalli. Chico seguiu ao microfone da Nacional em janeiro e fevereiro de 1942, com repertório variado, mas a música foi repetida diversas vezes. Tanto agradou que o mesmo periódico, em 02/02/1942, transcreveu os versos iniciais da canção e fez uma revelação: “Os sons da linda música e a letra que a acompanha são conhecidos já pelos rádio-ouvintes de todo país”. Ou seja, no mês em que o disco foi lançado, a criação de Alcyr e Pedro fazia um tremendo sucesso através das ondas radiofônicas. Assim também foi durante o reinado de Momo, segundo a lista das “15 melhores músicas do Carnaval de 42” publicada pela revista Carioca em 14 de fevereiro daquele ano.

 

Tal como o samba de Ary, e outros do próprio Alcyr, “Sandália de prata” traz, em seus versos, um quê de ufanismo, de exaltação ao que o Brasil teria de melhor: o samba, a mulata, o pandeiro, a paisagem tropical, as riquezas naturais, o próprio brasileiro... Quem quiser viver contente, como a vida deve ser / É olhar pra essa gente que tão bem sabe viver / Nesta terra camarada, a gente vive como quer / Tem luar, tem batucada, tem carinho de mulher. Com a orquestração e o ritmo certos – numa emulação daquele tan-tan-tan, tan-tan-tan típico da “Aquarela” –, era realmente impossível resistir a sambas deste tipo; escutando-os, parecia mesmo difícil achar motivos para se falar mal do nosso país – ainda que, não custa lembrar, vivêssemos numa ditadura e houvesse muito a ser criticado.

 

O fascínio pelo gracioso calçado argênteo (desculpem, mas não terei outra oportunidade de usar essa expressão...) transcende as fronteiras da MPB. Em texto publicado no Diário de Notícias de 27/02/1949, a cronista Mag (Magdala da Gama Oliveira) fala sobre seu encontro, na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, com uma sandália prateada, que, presa a um ferro na porta de um sapateiro, estava secando, “esperando a dona para o baile da noite”. Seu brilho recente denunciava que antes teria sido de outra cor, branca ou preta. “Ah, tive inveja daquela sandália! Correr os bailes, dançar loucamente, repousar depois num momento de idílio, na pausa de um beijo... (...) Se eu pudesse trocar a minha ilustre tristeza pela obscura sandália prateada! Mas a minha sandália é de ouro e não sabe bailar. Minha tristeza é de bronze, e tão pesada que não pode cantar. Ninguém troca uma ligeira sandália de prata por uma sandália de ouro que não aprendeu a sambar...”.

 

O tema “sandália de prata” sem dúvida dá samba. Pelo menos outros quatro surgiram nas décadas de 1950 e 1960 trazendo em seus versos alguma referência ao calçado que, na nossa música popular, reluz mais do que o ouro. Em 1956, Raul Moreno gravou “Chiquê da mulata”, de Altamiro Carrilho e Sebastião Silvestre: Mexe, mexe com as cadeiras, mulata / Calça aquelas sandálias de prata / Vem mostrar o valor que o samba tem. Ângela Maria, em 1957, levou para o disco “Vou comprar pra você”, parceria de Haroldo Lobo com Milton de Oliveira: Eu vou comprar, eu vou comprar / Uma sandália, uma baiana pra você sambar, eu vou comprar / Eu vou comprar sandália de prata / E a baiana vai ser de cetim.

 

Um grande sucesso foi “Levanta Mangueira”, de Luiz Antônio, lançado em 1958 por Zezinho e regravado em 1959 por Miltinho: Mostra a sandália de prata da mulata / A voz da cuíca e o tamborim / Mostra que o samba nasceu em Mangueira sim. E, em 1963, a parceria de Waldemar Silva e Arnô Canegal ecoou no vozeirão de Ari Cordovil: Me pediu uma baiana, eu dei / Uma sandália de prata, eu dei / Pano da costa, colares e guia mandei buscar na Bahia (...) E depois de tudo isso, resolveu me abandonar....


Foto: revista O Cruzeiro, 07/12/1946, p 93

 

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