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Dircinha Batista, ‘patrimônio nacional’: uma seleção musical comentada no centenário da cantora

Pedro Paulo Malta

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Quando Dircinha Batista foi notícia pela última vez, a música foi apenas mais um entre tantos assuntos nos obituários dedicados a ela. É que sua morte, em de 18 de junho de 1999, aos 77 anos, pôs fim a uma série de tristezas em que sua vida andava envolta, como contaram os jornais e revistas.

Falou-se da década que passou internada no hospital psiquiátrico Doutor Eiras, em Botafogo. Da penúria em que viveu, nos anos anteriores à internação, com a irmã, a também cantora Linda Batista (falecida em 1988), num apartamento insalubre em Copacabana. Do quanto esse fim melancólico contrastava com a fortuna que chegaram a ter nos anos dourados: “o suficiente para pagar as festas que duravam vários dias, os vestidos caros e os lendários doze carros na garagem”, como descreveu a revista Manchete (26-06-1999). Houve ainda quem destacasse as joias e as dezenas de casacos de pele que mantinham no apartamento deslumbrante em que residiam na Avenida Ruy Barbosa, no Flamengo.

Exageros folhetinescos à parte, o fato é que as matérias se ocuparam primeiro do glamour dos tempos áureos e da derrocada até a velhice miserável, deixando pra depois o resto – no caso, a carreira artística de Dircinha Batista, e assim mesmo em poucas notas. Nenhuma referência ao canto singular que fez dela uma das grandes de seu tempo, à versatilidade com que interpretava os mais variados gêneros musicais ou aos compositores que a tinham entre suas vozes preferidas (como Ary Barroso, Lupicínio Rodrigues e Wilson Batista). No máximo, uma nota ou outra sobre o título de Rainha do Rádio (que recebeu em 1948, das mãos da irmã Linda), o início profissional precoce e alguns sucessos de carnaval.

Nascida há cem anos (em 7 de abril de 1922, em São Paulo), com o nome de Dyrce Grandino de Oliveira, Dircinha foi também uma das artistas de maior evidência de seu tempo, fosse pelas cantorias no rádio, nos filmes, nos shows ou nos discos que fez – só em 78 rotações, foram 318 gravações lançadas, como o leitor pode conferir aqui no site Discografia Brasileira. Entre elas, selecionamos dez que são marcos importantes em sua trajetória artística, alguns sucessos e outras que se relacionam com sua vida – a lista é apresentada (e comentada) em ordem cronológica:

DIRCINHA (Batista Jr.), Columbia, julho de 1930

Filha do comediante e ventríloquo Batista Júnior, Dircinha Batista foi o que se podia chamar de criança prodígio: tinha seis anos quando começou a se apresentar com o pai, ainda em São Paulo, onde nasceu. Já no Rio de Janeiro, virou atração na Rádio Cajuti, apresentada por um padrinho artístico de respeito: o “Rei da Voz” Francisco Alves. Não tardou a lançar o primeiro disco, aos oito anos, pela Columbia, tendo entre as músicas gravadas a canção “Dircinha”, composição de seu próprio pai, com a menina (identificada no selo do disco como Dircinha Oliveira) acompanhada pelo trio Gaó, Jonas e Zezinho. Durante a infância e a adolescência, Dircinha – assim como a irmã Linda, três anos mais velha – será escoltada nos ambientes artísticos por sua mãe vigilante, Emília, mais conhecida como Dona Neném. 

PIRATA (João de Barro e Alberto Ribeiro), RCA Victor, fevereiro de 1936

No cinema, onde os artistas de rádio podiam ser vistos pelo grande público, Dircinha Batista também se fez presente: na base de dados da Cinemateca Brasileira: são 32 os filmes que contaram com participações da artista. Entre eles está “Alô, alô, carnaval”, longa-metragem da Cinédia produzido em 1935 e lançado em janeiro de 36, com números musicais que miravam o carnaval daquele ano: era o caso da marcha “Pirata”, composição dos craques João de Barro (o Braguinha) e Alberto Ribeiro que Dircinha (13 anos) apareceu cantando a caráter, de lenço na cabeça e brincos de argola, à frente de uma pintura em que são vistos um navio e um coqueiro (veja a cena aqui). O acompanhamento é dos Diabos do Céu, liderados por Pixinguinha.

PERIQUITINHO VERDE (Nassara e Sá Róris), Odeon, janeiro de 1938

Dircinha tinha apenas 15 anos quando gravou (29-11-1937) e lançou (em janeiro de 38) este que é seu primeiro sucesso, tendo sido uma das músicas mais cantadas no carnaval de 1938. Composição romântica e brejeira criada pela parceria de Antônio Nássara com José Reis de Sá Roriz, nada mais natural que este primeiro sucesso de Dircinha fosse em ritmo de marchinha – gênero musical que estará presente em toda a sua discografia.

UPA UPA (MEU TROLINHO) (Ary Barroso), Odeon, janeiro de 1940

Dircinha Batista era uma das cantoras favoritas e amiga próxima de Ary Barroso, de quem gravou ao todo 14 músicas, entre elas o samba-tributo “Rio”, já em 1948. Das aparições públicas que fizeram – entre shows e programas de rádio – destaca-se a noite em que ciceronearam a dançarina canadense Josephine Baker ao terreiro de Mãe Adedé, em Ramos, em junho de 1939. A marchinha “Upa upa (Meu trolinho)” foi um dos lançamentos de Ary no 1º carnaval após o estouro de “Aquarela do Brasil”, tendo feito muito sucesso com o público infantil neste registro de Dircinha acompanhada pela Orquestra Odeon dirigida pelo violinista Simon Bountman.

CALMA NO BRASIL (Nássara e Frazão), Odeon, julho de 1940

As músicas patrióticas ambientadas na Segunda Guerra Mundial são um capítulo à parte no repertório de Dircinha Batista. Uma série que foi aberta com esta marchinha e depois continuou com exemplares como “Salve a mulher brasileira” (Rubens Campos e Sebastião Lima) e “Grito da nação” (Max Bulhões e Nelson Trigueiro), ambas de 1942, e “O mundo vai melhorar” (Roberto Martins e Frazão), de 1943. Nada mal para a cantora que – juntamente com a irmã, Linda – foi definida um “patrimônio nacional” pelo fã mais importante da dupla, o então presidente da República Getúlio Vargas.

INIMIGO DO BATENTE (Wilson Batista e Germano Augusto), Odeon, maio de 1940

Cantado na voz da companheira de um sujeito avesso ao trabalho, "Inimigo do batente" é um dos sambas feitos na época em que o Estado Novo, do presidente Getúlio Vargas, amigo de Dircinha Batista, vinha enquadrando a malandragem e também os sambistas que faziam apologia a ela. Eleita a "cantora do Rio" em 1940, Dircinha era simplesmente a cantora favorita de seu compositor, Wilson Batista, de quem gravou outros tantos sambas, como “Chico Brito” (com Afonso Teixeira), este último também sobre um malandro, mas sem final feliz – ele acaba nas mãos do “meganha”, ou melhor: do Peçanha, para o agrado da Censura. 

O SANFONEIRO SÓ TOCAVA ISSO (Haroldo Lobo e Geraldo Medeiros), Odeon, junho de 1950

Além dos sambas e das marchinhas carnavalescas, predominantes no repertório de Dircinha Batista, outros gêneros musicais se fizeram presentes, como o frevo, o jongo, o fox, a valsa, o baião e o bolero, entre outros.  Também foi na sua voz que saiu a primeira gravação deste sucesso vitalício das festas de São João: a marchinha junina “O sanfoneiro só tocava isso”, composição do carioca Haroldo Lobo com o maestro pernambucano Geraldo Medeiros.

NUNCA (Lupicínio Rodrigues), Odeon, abril de 1952

Dircinha Batista também lançou em primeira mão grandes sucessos da música de dor-de-cotovelo, como esta composição do esteta desse gênero, o gaúcho Lupicínio Rodrigues, em disco Odeon lançado em abril de 1952. No livro “Copacabana: a trajetória do samba-canção” (Sesc e Editora 34/2017), o autor Zuza Homem de Mello destaca que Dircinha, acompanhada por “um pequeno conjunto no qual se pode identificar Fafá Lemos (violino) e Garoto (guitarra elétrica)”, lançou aquele samba com “afinação irrepreensível e intenção diversa da versão de Lupi”. O compositor lançou sua própria interpretação de “Nunca” em junho daquele ano, seguido de Isaura Garcia, em julho, iniciando a trajetória de um dos sambas-canção mais regravados da história.

SE EU MORRESSE AMANHÃ DE MANHÃ (Antônio Maria), RCA Victor, abril de 1953

No ano seguinte a “Nunca”, Dircinha foi a primeira a lançar em disco outro grande sucesso do samba-canção, “Se eu morresse amanhã de manhã”, composição do pernambucano Antônio Maria. Nesse tipo de repertório, podia mostrar que seu canto, além de se prestar à brejeirice das marchinhas e à divisão do samba, era talhado também para o cancioneiro romântico. Não à toa, o cronista José Fernandes – com o “assentimento” de seu colega Sérgio Porto – a classificaria na revista Radiolândia (28-12-1957) como “a voz mais bonita” num texto sobre um show de que participou com outras quatro cantoras: Emilinha Borba (“a mais simpática”), Marlene (“a mais bonita”), Dalva de Oliveira (“a mais saudada”) e Angela Maria (“a mais cabrocha do meu Brasil, boa toda vida”).

A MULHER QUE É MULHER (Klecius Caldas e Armando Cavalcanti), RCA Victor, janeiro de 1954

Mesmo com todo o machismo entranhado desde sempre na sociedade brasileira, é quase inacreditável que este samba – um dos mais cantados do carnaval de 1954 – tenha passado incólume quando saiu, com seu refrão tão leniente com a poligamia masculina: “A mulher que é mulher / Não deixa um lar à toa / A mulher que é mulher / Se o homem errar... perdoa”.  Destacam-se nesta gravação a lindíssima interpretação de Dircinha (que aqui alcança um de seus maiores sucessos) para esta composição de dois grandes nomes da música carnavalesca: os militares (e boêmios) Armando Cavalcanti e Klécius Caldas. 

Foto: Coleção José Ramos Tinhorão / IMS

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