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Uma voz espetacular: os 90 anos de Agostinho dos Santos, o artista que ensinou Orfeu a cantar

Fernando Krieger

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Agostinho dos Santos. E dos sambas, do samba-canção, da Bossa Nova, do bolero, do fox... até do rock! Agostinho do Bixiga, do futebol, da consciência negra. Agostinho internacional. Da voz potente e suave. A voz de Orfeu. Um dos maiores intérpretes da música popular brasileira. Um dos mais injustamente esquecidos.

 

Oficialmente nascido em 25 de abril de 1932 – na verdade, este é o dia do seu batizado –, Augustinho dos Santos veio ao mundo no dia 6 de janeiro daquele ano na Rua Santo Antônio, no Bixiga, bairro não oficial inserido nos limites do distrito da Bela Vista, em São Paulo. Sua ligação com o Bixiga perdurou por toda a vida: devoto de Nossa Senhora Aparecida, nunca deixou de frequentar a paróquia de Nossa Senhora Achiropita (a “Santa Caropita” dos paulistanos), mesmo depois da fama.

 

Jamais esqueceu do menino pobre que um dia havia sido: “Não fui garoto de ter brinquedos, como a grande maioria. (...) Quando entendi que podia trabalhar para ajudar os meus pais, eu tinha apenas quatro anos. Um ano depois cantei em um parque infantil e recebi o prêmio de 3 cruzeiros!”, recordou em entrevista publicada na Revista do Rádio de 07/11/1959. Passou a estudar de noite e a trabalhar de dia: foi, segundo contou, “garoto de recados, limpador de ferro numa metalúrgica, ajudante de oficinas mecânicas, entregador de roupas e de carne verde! Durante a guerra [1939-1945] eu ajudava a colocar carvão nos automóveis movidos por gasogênio. Mas aquele gás prejudicava a minha saúde e mudei de profissão...”. Foi ainda entregador de sapatos, funcionário de laboratório de produtos farmacêuticos e camelô.

 

Aos 13, como relembrou na mesma entrevista, “jogava futebol em times do subúrbio, pois nas vitórias ganhava 30 cruzeiros de gratificação...”. O esporte mais popular do Brasil sempre ocupou lugar de destaque em seu coração. Foi campeão amador em São Paulo, chegando a atuar como profissional no União Mogi, de Mogi das Cruzes. Era conhecido na época como Bauer, provavelmente uma referência a José Carlos Bauer, volante da seleção brasileira vice-campeã da Copa de 1950.

 

“Se me fosse dado ser outra coisa que não cantor profissional, creio mesmo que gostaria de ser algo parecido com o grande Domingos da Guia!”, declarou à Radiolândia de 21/03/1959. “Fundador e militante” – como se definiu na mesma matéria – do Boca Juniors F. C. da Bela Vista, onde continuava atuando (como zagueiro ou half recuado) mesmo depois de se tornar um artista nacionalmente famoso, jogava também pelo Sereno Futebol Clube, ao lado de seu colega-cantor Francisco Egydio. “Eu sou mesmo um craque. Sou melhor jogador de futebol do que cantor”, gabou-se à Revista do Rádio de 22/11/1958.

 

“Agostinho dos Santos, sempre que consegue acordar cedo, vai bater bola na Gávea, no estádio do Flamengo...”, revelou a maledicente Candinha na Revista do Rádio de 25/12/1965. No Rio – onde chegou a morar depois da fama, em Copacabana –, torcia para o rubro-negro. Não raro Agostinho aparecia nas fotos das revistas e dos jornais cercado por jogadores – era amigo de dúzias deles –, fazendo embaixadinhas, formando ao lado dos companheiros do Boca ou mesmo junto das jogadoras da seleção paulista de vedetes, onde ele atuava como um dos integrantes da comissão técnica.

 

O garoto pobre do Bixiga que fazia mil bicos e jogava bola sonhava em ser cantor. Participou de diversos programas de calouros. “Certa ocasião, em apenas dois dias (sábado e domingo) ele abiscoitou o primeiro lugar em quatro programas!”, segundo a Revista do Disco de agosto de 1957. De tanto ganhar concursos afins, passou a ser recusado, como lembrou José Medeiros em O Cruzeiro de 14/02/1959. Diziam ao jovem: “não podemos inscrevê-lo desta vez. Procure um diretor de rádio”. Quando ia até um diretor de rádio, ouvia: “Procure um programa de calouros”.

 

Sua primeira oportunidade profissional foi na Rádio América, em 1951. No ano seguinte estreou em gravações, no lado A do disco Star 412, com o ótimo samba “Rasga teu verso” (no outro lado estava uma marcha interpretada pelo Cabo Pitanga). Levaria três anos para que lançasse um 78 rotações só seu, com “O vendedor de laranjas” e “A última vez que vi Paris” (versão de “The last time I saw Paris”, de Jerome Kern), lançado em 1955 pela Polydor. Neste meio tempo, passou pela Rádio Cultura e teve um grande aprendizado como crooner de orquestras de bailes, como a de Osmar Milani, até se firmar de vez na Rádio Nacional paulista. Não demorou para despertar o interesse das emissoras cariocas: em 1955 já fazia temporadas na Mayrink Veiga e na Mundial.

 

A Revista do Disco de abril de 1956 e O Semanário de 17 a 24/05/1956 trazem a informação de que Agostinho havia participado até aquele momento de três filmes: “Simão, o caolho”, de 1952, “Mulher de verdade” e “Mãos sangrentas”, os dois últimos de 1954. Todos omitem nos créditos o nome do novato, mas é possível inferir que seja dele a voz que canta o “Xaxado” de Luiz Gonzaga e Hervé Cordovil no primeiro, a polquinha “A sanfona do jumento” no segundo e o baião “Carapiá” no último. Em 1956, participou como ator dos teledramas “Uma dama solitária” e “Os anos de sua vida”, na TV Paulista. Já famoso, deu pinta em vários filmes, como “Dorinha no soçaite” (1957), onde canta o samba-canção “As três Marias”; “É de chuá” (1958), com a marcha “Maria Xangai” (aos 2 minutos do filme); “Com a mão na massa” (1958); e “Garota enxuta” (1959), onde se acompanha ao piano, em clima bem Bossa Nova, no samba-canção “Nem Sol, nem paz, nem você”.

 

Entre 1955 e 1961, conquistou prêmios em sequência, em diversas categorias: cantor revelação, melhor cantor de rádio, de disco e de televisão. Levou para casa quatro troféus Roquette-Pinto – concedidos pela Associação dos Cronistas Radiofônicos de São Paulo – em 1955, 1956, 1957 e 1958; três Tupiniquins (1957, 1958 e 1959); dois Discos de Ouro do jornal O Globo (1956 e 1957); além do primeiro lugar em eleições feitas por Radiolândia (1955, 1956 e 1959) e pela Revista do Rádio (1959 e 1961), onde cronistas especializados votavam nos melhores de cada ano.

 

“Meu benzinho”, versão de Cauby de Brito para a valsa “My little one”, gravada por Agostinho com declamação do ator Wálter Forster, foi, segundo as edições de Radiolândia de outubro a dezembro de 1956, campeã de popularidade no Rio e em São Paulo. O disco de 78 rpm com a música tinha vendido, até abril de 1957, mais de 80 mil cópias (informação da Revista do Disco daquele mês). Versões e ritmos estrangeiros faziam sucesso na interpretação do cantor de “voz derrapante” – Agostinho era chamado assim pelos periódicos da época (honestamente, ele merecia epíteto melhor...).

 

Chegou a levar um puxão de orelha da Comadre Eudóxia na Radiolândia de 13/10/1956: “Que o Agostinho canta bem, isso não temos dúvida, mas esse negócio de cantar versões a Comadre não endossa”. Ele, no entanto, não dava muita bola. Em 1956 – ano em que lançou o primeiro dos diversos long-playings de sua carreira –, gravou em 78 rpm o fox “Falam meus olhos” – com acento bem bossanovista, antes do surgimento da Bossa Nova – e o curioso fox-marcha “Pif paf (Dança das damas)”, com um quê de música de filme de faroeste – a música remete a um jogo de cartas típico dos saloons do velho Oeste. Em 1957, lançou, com letras em português, dois sucessos internacionais: o rock “Até logo jacaré (See you later alligator)”, do repertório de Bill Haley e Seus Cometas, e a canção “Só você (Only you)”, famosíssima criação do conjunto The Platters.

 

Bom no samba – “Vagabundo e sonhador” – e no bolero – “O amor não tem juízo” –, Agostinho ficaria ligado sobretudo a dois gêneros musicais que o consagrariam: o samba-canção e a bossa nova. Do primeiro são representantes “Maria dos meus pecados”, “Balada triste” – com citação à “Serenata” de Franz Schubert na introdução – e o megassucesso de Tito Madi “Chove lá fora”. Gravações que ajudam a explicar por que o cantor é considerado um dos precursores do novo movimento que surgiu entre 1957 e 1958. E do qual também foi legítimo representante, vista que, desde o início, incluiu em seu repertório sambas-canção hoje plenamente identificados com a Bossa Nova, como “Se todos fossem iguais a você”, “Por causa de você” e “Estrada do Sol”, este último lançado por ele. (Assista aqui sua interpretação da música ao vivo no Teatro Record de São Paulo.)

 

O Olimpo de Agostinho chegaria pelas mãos de Orfeu, o maior dos poetas e músicos segundo a mitologia grega, personagem reinventado por Vinicius de Moraes em 1954 na peça “Orfeu da Conceição” (encenada dois anos depois), por Vinicius e Tom Jobim no LP homônimo de 1956 e pelo filme de Marcel Camus “Orfeu negro” (ou “Orfeu do Carnaval”), lançado em 1959. Neste, o papel-título coube ao gaúcho Breno Mello, ator e jogador de futebol. Como revelam Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello (“A canção no tempo”, vol. 2: Ed. 34, 1998), o produtor Sacha Gordine “exigiu que fosse criada uma nova trilha sonora especialmente para a produção. Motivo: o francês queria faturar em cima da edição das músicas”.

 

Duas canções dessa trilha tornaram-se conhecidas pelos quatro cantos do mundo. “A felicidade”, de Tom e Vinicius, havia sido gravada em 1958 por Tony Vestani, mas foi Agostinho quem se consagrou internacionalmente ao interpretá-la na abertura do filme. O cantor registrou o samba duas vezes em 78 rpm no ano de 1959: o primeiro disco saiu em julho, tendo a participação luxuosa do autor Tom Jobim ao piano. Em agosto saiu a versão com Agostinho acompanhado pela Orquestra RGE, dirigida por Henrique Simonetti.

 

No outro lado dos dois 78 rpm havia uma mesma música, “Canção do amor”, uma melodia de Luiz Bonfá que recebera letra de Antônio Maria – e que faria sucesso absoluto em todo o planeta sob o nome “Manhã de Carnaval”, “um dos temas brasileiros preferidos na área do jazz, com dezenas de versões gravadas por grandes músicos do gênero, sob o inacreditável título de ‘A day in the life of a fool’”, lembram Jairo e Zuza, revelando ainda que a composição “tem os compassos iniciais semelhantes aos do tema do terceiro movimento da ‘Humoresque em Si bemol, opus 20’, de Robert Schumann”. No disco lançado em julho, Agostinho é acompanhado pelo violão do autor, Luiz Bonfá; no de agosto, novamente a Orquestra RGE de Simonetti se faz presente.

 

Quando Orfeu canta no filme, é a voz de Agostinho que se ouve, dublada por Breno Mello. “Orfeu negro” ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1959 e o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1960 – e o nome de Agostinho, mais uma vez, ficou de fora dos créditos. Mesmo assim, o cantor, já bastante conhecido na América do Sul, conseguiu ainda mais projeção internacional: no fim do ano, embarcou para a Europa, fazendo tremendo sucesso em Portugal. De acordo com a Radiolândia de 23/01/1960, ele recebeu, por audição, oito mil escudos, mais de cinquenta mil cruzeiros – “o maior cachê já pago a artista estrangeiro nos últimos quatro anos no país”. O articulista afirmava que, “fora Leny Eversong, terá sido ele o artista brasileiro mais ovacionado no além-mar até esta data”.

 

Ovação que também recebeu da plateia presente ao famoso – e polêmico – concerto de Bossa Nova apresentado na noite de 21/11/1962 no Carnegie Hall, em Nova York. O evento dividiu opiniões. No dia seguinte, o Jornal do Brasil publicou: “Fãs americanos aplaudem com entusiasmo ‘show’ da bossa nova em Nova Iorque”. Orlando Suero, n’O Cruzeiro de 08/12/1962, disse que muitos dos 3 mil espectadores fugiram na segunda parte do festival. A Revista do Rádio de 22/12/1962 destacou: “Novo ritmo brasileiro não agradou em New York. Fracassou a Bossa Nova”. Sylvio Tullio Cardoso, cronista de discos de O Globo, em entrevista para a Revista do Rádio de 05/01/1963 afirmou: “Acho que, mesmo com toda a desorganização, foi uma grande noite para a música brasileira”.

 

Opiniões bastante divididas espalhadas por toda a imprensa. De concreto, só o talento de Agostinho, que interpretou “A felicidade” e – novamente com Bonfá ao violão – “Manhã de Carnaval”, sendo aplaudido com entusiasmo. Para muitos da plateia, foi ele o ponto máximo do espetáculo, conta Ruy Castro em “Chega de saudade” (Companhia das Letras, 1990).

 

Agostinho foi frequentador assíduo e relações-públicas informal do Aristocrata Clube, exclusivo para negros, fundado em São Paulo em 07/03/1961. Um ato de resistência, uma resposta aos (inúmeros) clubes de brancos que não aceitavam sócios negros em suas dependências, ou que os discriminavam escancaradamente – e o garoto pobre do Bixiga sabia muito bem o que era isso. (O cantor famoso também sabia: ele e diversos artistas negros eram costumeiramente chamados pela imprensa brasileira de colored, tratamento considerado pejorativo até nos Estados Unidos.) “O Aristocrata surgiu nesse sentido: pra ter um lugar de lazer e, ao mesmo tempo, ser um fórum de debate e um centro de informações”, explica o sócio-fundador Adalberto Camargo no documentário “Aristocrata Clube” (2004), de Jasmin Pinho e Aza Pinho.

 

Prestigiado por personalidades como Elizeth Cardoso, Wilson Simonal, Jair Rodrigues, Alaíde Costa e Noite Ilustrada, o espaço também recebeu visitantes estrangeiros, entre eles a cantora e dançarina Josephine Baker, os cantores Chris Montez e Sarah Vaughan e o boxeador Cassius Clay/Muhammad Ali. “Tudo o que é cantor que você imaginar, que passou por lá, foi tudo obra do Agostinho dos Santos. Todo cantor, toda cantora, foi ele quem levou lá pro clube”, diz o sócio-fundador José Luis Fernandes aos 18 minutos do documentário. (Vale ir até os 18:22 para ver/ouvir um trecho do dueto com Johnny Mathis na bela “O amor está no ar”, de Agostinho e Joab Teixeira.) 

 

Em 1963 o cantor lançou “Negro”, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli (reparem no agudo incrível ao final da música), “Telefone” (samba com muita bossa, de autoria da mesma dupla) e o bolero “Recuerdos de ti”, em espanhol.

 

Agostinho teve atuação discreta como compositor. São cerca de 14 músicas que levam sua assinatura, cinco gravadas por ele em 78 rpm: “Vai sofrendo” (com Vicente Lobo e Osvaldo Morige), “Balada do homem sem Deus” (com Fernando César), “Chuva para molhar o Sol” (com Edson Borges), “Distância é saudade” e “Ave amor” (com Chico Feitosa).

 

Um post é muito pouco para se falar de todos os aspectos da vida de Agostinho: sua relação (conflitante) com a balança, os passeios com seu karmann-ghia (ao volante do qual costumava desfilar como um playboy, segundo a Candinha), os relacionamentos amorosos (teve um ruidoso caso, cheio de idas e vindas, com a cantora Elza Laranjeira), sua reação às piadas de mau gosto (pugilista amador, de vez em quando saía na mão com alguém)... Era muito querido pelos fãs, pela classe artística e pela família, sobretudo pelos três filhos, Nancy, Augustinho Júnior e Airton.

 

Em maio de 1973, recebeu o prêmio de melhor cantor popular da Associação Paulista de Críticos. Em julho, iria apresentar, na VI Olimpíada Internacional da Canção, em Atenas, na Grécia, a música “Paz sem cor” – um manifesto em favor da igualdade entre as raças –, composta por ele em parceria com a filha, Nancy Palleta dos Santos (São Paulo, 29/10/1953 - São Bernardo do Campo, 07/07/2020), então com 19 anos.

 

No dia 11 de julho, após 11 horas e meia de voo a partir do Rio de Janeiro, um avião da Varig pegou fogo, devido a um incêndio num dos banheiros – causado provavelmente por causa de uma ponta de cigarro acesa jogada no lixo –, e fez um pouso forçado nos arredores do aeroporto de Orly, em Paris. Morreram na tragédia 123 pessoas, entre elas o então presidente do Senado e da Arena (o partido da ditadura), Filinto Müller; a atriz e socialite Regina Léclery; os jornalistas Júlio Delamare, Antônio Carlos Scavone e Celso Leite Ribeiro; o iatista Jörg Bruder; e Agostinho, aos 41 anos de idade.

 

Ele foi “o princípio e o fim” da Olimpíada, como informou O Cruzeiro de 1º/08/1973: “Sua música, ‘Paz sem cor’, enviada em fita para a inscrição, serviu de abertura e encerramento do festival – uma voz cantando longe, em playback”. Um prêmio especial com seu nome foi criado. O poeta grego George Ikonomidis recitou versos de sua autoria em homenagem a Agostinho. Este foi conduzido por Nossa Senhora Achiropita e por Apolo, deus grego da música e da poesia, ao Olimpo dos deuses da voz, sendo recebido com uma grande festa. Dizem que o próprio Orfeu lá estava, tocando sua lira e pedindo: “Canta, Agostinho, canta com sua voz tão bonita...”.

 

 

Foto: Agostinho dos Santos por Herrera / Coleção José Ramos Tinhorão / IMS

 

 

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