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120 anos da internacional Elsie Houston: da música clássica à macumba, do Municipal às boates, uma voz bem brasileira

Fernando Krieger

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“D. Elsie é a melhor das minhas intérpretes, como cantora. Tem voz agradável. Temperamento invulgar. E, sobretudo, é profunda conhecedora de música e canto”.

(Heitor Villa-Lobos – Correio Paulistano, 11/09/1929)

 

Cantoras, pesquisadoras e folcloristas, elas foram muito atuantes na primeira metade do século passado, mas hoje infelizmente são pouco lembradas: a amazonense Olga Praguer Coelho, a fluminense (de Campos dos Goytacazes) Jesy Barbosa, a paulistana Helena de Magalhães Castro e as pernambucanas Stefana de Macedo e Amélia Brandão Nery (Tia Amélia). Neste grupo desponta a personalidade vibrante de Elsie Houston: negra, cantora, arranjadora, escritora, ligada a ícones do movimento modernista, casada com um poeta surrealista, divulgadora da música brasileira no exterior, artista de fama internacional, que teve sua vida – bastante agitada – interrompida de maneira abrupta aos 40 anos.

 

Filha de pai estadunidense e mãe carioca, Elsie nasceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 22 de abril de 1902. Com 7 anos começou a aprender piano; aos 15, passou a estudar canto lírico com a italiana Stella Parodi. Por intermédio desta, conheceu, em 1922, o compositor, pianista e folclorista Luciano Gallet, de quem ela estrearia, em 1926, duas harmonizações para canto e piano: “Taieiras” (tema folclórico também conhecido sob o nome “Virgem do Rosário”) e “Bambalelê”. Elsie faria o registro fonográfico de ambas apenas em 1941, pela Victor dos Estados Unidos.  

 

Aos 20 anos já era aluna de Lilli Lehmann na Alemanha; entre 1924 e 1925, teve aulas em Buenos Aires – onde começaria sua carreira profissional – com aquela que seria considerada sua principal mestra, Ninon Vallin. Após um breve retorno ao Brasil, em 1925, partiu no ano seguinte para Paris, onde se consolidou como grande nome do canto, mostrando sua arte tanto em salas de concerto célebres, como Gaveau e Pleyel, como também em cabarés famosos, como o Sheherazade. Foi na Cidade Luz que conheceu o poeta surrealista e militante trostskista Benjamin Péret, com quem se casaria em 1927.

 

Elsie participou, em 24 de outubro deste ano, do primeiro dos dois célebres concertos organizados por Heitor Villa-Lobos – um dos seus padrinhos de casamento – na Sala Gaveau, sob a direção do próprio maestro (veja o programa aqui). No mesmo local, apresentou-se em 03/05/1928 interpretando sete “Serestas” do compositor, acompanhada ao piano pela primeira mulher deste, Lucília Villa-Lobos.

 

Datam da mesma época, maio de 1928, as gravações feitas por ela para os Archives de la Parole, laboratório experimental para estudos de fonética da Universidade Sorbonne, de Paris: “Puxa o melão, sabiá”, “Estrela do céu”, “Bambo do bambu”, “Luar do sertão”, “Tutu marambá” e “Yayá, vancê quer morrer”. Estes são considerados os registros mais antigos de sua voz. No mesmo ano, a Gramophone francesa colocou no mercado um disco com quatro “Serestas” de Villa-Lobos interpretadas pela soprano, também com Lucília Villa-Lobos ao piano: de um lado, “Realejo” (dedicada a ela pelo compositor) e “Estrela do céu”; do outro, “Desejo” e “Na paz do outono”.

 

A imprensa brasileira noticiou efusivamente a chegada do casal Péret ao país em 19/02/1929. Elsie, consagrada no exterior e já bem famosa por aqui, tinha vários amigos entre os modernistas – era adorada por Mário de Andrade – e, ao lado do marido, participou de saraus, jantares e eventos sociais. Ambos prestigiaram a primeira exposição individual de Tarsila do Amaral no Brasil, no Palace Hotel do Rio de Janeiro, em julho. Também empreenderam várias viagens pelo Norte e pelo Nordeste, mergulhando no folclore e nas religiões afro-brasileiras. A cantora arrebatou o público em apresentações no Theatro Municipal e em diversos palcos de São Paulo, onde o casal residia, com repertório que mesclava música moderna e folclórica, autores estrangeiros e nacionais. Passou a atuar também como professora de canto.

 

Foi nesta época que Elsie realizou uma série de gravações em 78 rotações. São 28 fonogramas em 16 discos, 15 destes lançados pelo selo Columbia em 1930 e um pela Victor em 1932 (gravado no ano anterior). A eclética cantora-folclorista transitava com facilidade e graciosidade por gêneros musicais diversos: coco (“Coco dendê trapiá / Ai sabiá da mata”, “Eh jurupanã”), samba (“Macumbagelê”, “Saudades da Bahia”), samba-canção (“Vou pra Bahia”), choro-canção (“Coração das muié”), modinha (“Por meu amor por ti”), batuque (“Cadê minha pomba rola”) e até o estrangeiro fox-trot, tanto em português – “Sonhador (Aren’t we all)” – quanto em inglês – “Should I?” e “You do something to me”.

 

Seu canto natural, nada impostado, a limpeza da sua emissão sonora, seu timbre de voz e sua dicção clara eram elogiados pelos críticos da época. O cronista H., no Diário de S. Paulo de 1º/10/1930, foi enfático: “(...) não se parece com nenhuma das outras lindas vozes que já tenho ouvido. É molenga, voluptuosa, preguiçosa, carinhosa, brasileira. A voz mais brasileira das nossas cantoras”.

 

O babalorixá Faustino Pedro da Conceição – o Tio Faustino, que tocava omelê no Grupo da Guarda Velha, dirigido por Pixinguinha – teve grande importância na vida pessoal e profissional de Elsie, como ela recordou em texto escrito para a Harper’s Bazaar de março de 1941, transcrito pela revista O Cruzeiro de 19/04/1941: “As cantigas ‘voodoo’ brasileiras que eu canto – e na opinião da PM arrulho e murmuro – são também o resultado de anos de pesquisas pessoais. Fui iniciada no culto Candomblé por meu finado amigo Tio Faustino, um feiticeiro da Bahia”. São dele os dois sambas que Elsie gravou para o citado disco da Victor, em dezembro de 1931, acompanhada pela Orquestra dos Batutas, conduzida por Pixinguinha: “Vejo a Lua no céu” e “Capote do mangô é teu”.

 

“Há reuniões secretas, pelo medo à polícia, em casa de feiticeiros no Rio e em barracões nos morros e do outro lado da baía”, escreveu Elsie no artigo acima citado. Numa época de repressão às religiões afro-brasileiras – absurda demonstração de intolerância que infelizmente se repete nos dias de hoje –, a cantora teve a coragem de emprestar sua voz a ritmos originários destas matrizes culturais, fosse através dos discos ou do rádio, fosse nos palcos ou mesmo através de seu trabalho como pesquisadora.

 

Em 1930, publicou, pela Librairie Orientaliste Paul Geuthner, de Paris, o livro que é hoje uma referência para estudiosos e folcloristas: “Chants populaires du Brésil”, compilação de 42 melodias recolhidas de fontes diversas. Há temas indígenas – originalmente registrados em gravador por Roquette-Pinto –, emboladas, cocos, chulas, lundus, desafios, modinhas, canções infantis e dois thèmes de makumba, “Estrela do céu” e “Xangô”.  (Ouça aqui o documentário da Rádio Batuta dedicado ao livro.)


Chants populaires du Brésil / Coleção José Ramos Tinhorão / IMS

 

Um artigo de sua autoria, “La musique, la danse et les cérémonies populaires du Brésil”, foi publicado nos Anais do I Congresso de Artes Populares em Praga, em 1931, e republicado – traduzido para o português – em três edições do jornal antifascista O Homem Livre, em 1933. Nele, Elsie discorria sobre diversos gêneros musicais e falava sobre manifestações culturais do Brasil – inclusive aquelas malvistas por muita gente da época: “Entre os frequentadores das macumbas contam-se os batuqueiros que dançam maravilhosamente nos sambas e nos batuques e que conhecem a fundo a arte muito difícil da capoeiragem”. Elsie, contudo, acabava difundindo alguns estereótipos. No mesmo texto, por exemplo, relacionou o “temível Exu” à figura do diabo – analogia enfim rechaçada pelo excelente (e já histórico) desfile “Fala, Majeté! Sete chaves de Exu”, que a campeã Grande Rio apresentou na Marquês de Sapucaí no último Carnaval, em abril.

 

O filho de Elsie e Péret, Geyser, nasceu em 31/08/1931, mesmo ano em que o casal se viu obrigado a deixar o Brasil: militante de esquerda, o poeta francês havia estabelecido contato com expoentes da vanguarda intelectual e política do Rio, fundando, com nomes como Aristides Lobo, Lívio Xavier e Mário Pedrosa – casado com Mary Houston, irmã caçula de Elsie –, a Liga Comunista, agrupamento ligado ao Partido Comunista Brasileiro. As atividades “subversivas” de Péret incomodaram Getúlio Vargas, presidente provisório (cargo conquistado à força após o golpe de estado de outubro de 1930), que o prendeu e posteriormente o baniu do país – o lado autoritário do futuro ditador já então se manifestava. O Correio da Manhã de 23/12/1931 noticiou a expulsão de Benjamin Péret e do sírio José Jacob, “por se terem constituído elementos nocivos aos interesses da República”.

 

Na França, a cantora e o marido começaram a se distanciar, talvez por causa do temperamento de Péret, um tanto rude e intransigente. Elsie passou poucos meses no Brasil em 1933 e, mais tarde, entre 1935 e 1936, desta vez já separada. No Rio, em 1936, encantada após assistir a uma apresentação de macumba no estúdio da Rádio Tupi – emissora onde atuava naquele momento –, com a presença de Pai Alufá (o afamado Zé Espinguela), escreveu uma pequena crônica, publicada em O Cruzeiro de 7 de março, enaltecendo o evento e lamentando apenas que as “explicações utilíssimas” de Nóbrega da Cunha “interrompessem tão amiúde os cânticos, impedindo assim que se criasse uma verdadeira atmosfera macumbeira”. Meses depois, retornou à capital francesa. Um novo capítulo da sua história teve início em 1937, quando ela decidiu se mudar para os Estados Unidos.

 

O Globo de 23/12/1937 noticiava: “(...) a folclorista que tanto sucesso vem colhendo na Europa para a nossa música típica e popular apresentou-se no roof garden do Edifício Rockfeller e, acompanhada por um conjunto regional brasileiro, fez uma sensacional apresentação de sambas, marchas e composições típicas, toadas, cateretês, cocos e maracatus. Elsie Houston exibiu-se como cantora e dançarina, vestida à baiana, (...) fazendo desse repertório típico, quer dos saborosos sambas dos morros e da Praça Onze, quer das toadas e dos cateretês sertanejos, dessas heranças ancestrais negras ou indígenas, criações inesquecíveis e tão importantes para a nossa cultura como qualquer manifestação superior de nossa arte”.

 

[Vigorava o pensamento de que existiria um tipo de arte “superior”; por puro preconceito, obviamente, a música advinda de uma herança negra ou indígena não pertencia a esta classificação, a não ser quando ressignificada por um artista reconhecido como legítimo representante da tal “arte superior”.]

 

Reinventando-se como cantora-dançarina, Elsie fazia shows em boates sofisticadas de Nova York, mostrando uma espécie de ritual de macumba estilizado, com invocações e cânticos aos orixás. Assim como Carmen Miranda, a soprano virou uma espécie de embaixadora informal do Brasil nos EUA durante o período da Segunda Guerra, chegando a apresentar, entre 1938 e 1940, um programa semanal de rádio pela National Broadcasting Company (NBC), com repertório de música brasileira e latina. Em 1939, estando pela última vez em sua terra natal, aproveitou para visitar na cadeia sua amiga Patrícia Galvão (Pagu), presa e torturada pelo Estado Novo de Vargas.

 

Tal como Carmen, Elsie Houston fazia performances nos palcos estadunidenses vestida de baiana. Um vídeo curto sobre o Carnaval carioca de 1942, produzido pela Paramount, mostra, após seu primeiro minuto, um raro registro de Elsie a la Carmen, seguido de uma cena onde Jose e Lolita Vega dançam o flamenco – longe de ser um gênero típico da festa de Momo...

 

A soprano não deixou de se apresentar à frente de orquestras: de acordo com uma edição da revista A Granfina de 1942, ela cantou com a National Symphony Orchestra – sob a regência do maestro brasileiro Walter Burle Marx, informava A Noite de 22/07/1942 – e recebera um convite para atuar com a Philharmonic Symphony Society de Nova York. Ainda A Noite, em 18/01/1943, exaltava o brilho da folclorista num recital no Carnegie Hall, entoando canções como “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso) e “Dança de caboclo” (Hekel Tavares).

 

Embora ainda casada oficialmente com Péret, mantinha um romance com o conde belga Marcel Courbon. Foi ele quem encontrou o corpo sem vida de Elsie no dia 20 de fevereiro de 1943, no apartamento dela na Park Avenue. A cantora estava na cama, vestida e sem sapatos; ao seu lado, um vidro com narcóticos e dois bilhetes escritos em francês: segundo os jornais Correio da Manhã e A Noite de 21/02/1943, um seria para Courbon e o outro para Maria Pedrosa (sua irmã Mary). Um aparente suicídio, de acordo com o Departamento Central de Polícia de Nova York. Nunca se soube o real motivo do seu gesto desesperado. Houve muita especulação: disseram que ela nunca havia superado a separação de Péret; que detestava a vida em Nova York e as performances que fazia nos night clubs; que estaria com problemas financeiros...

 

A artista que conquistava as pessoas com sua personalidade pujante e arrebatadora foi pranteada na imprensa pelos admiradores e amigos, como José Lins do Rego, Patrícia Galvão e Mário de Andrade. Este, na Folha da Manhã de 10/06/1943, dedicou-lhe um longo texto, cheio de lembranças afetivas: “O próprio timbre da voz dela era malicioso, coleante, evasivo que nem flauta. Um timbre de cor fria, exatamente do que em pintura chamam assim, e que não significa ausência das volúpias mais acariciantes, sensualidades agudas, nem sequer ignorância da paixão. Esta, Elsie Houston tinha até demais e foi o que a matou”. Como que a reforçar seu ponto de vista, Mário enfatizou no final: “Era moça, ainda podia fazer tanta coisa... Mas o seu jeito apaixonado de viver a levou”.

 

Foto:  Elsie Houston por S. Hertz (Arquivo Nirez)

 

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