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Memórias de Izaías Bueno de Almeida: uma seleção musical na chegada aos 85

Pedro Paulo Malta

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Izaías Bueno de Almeida: digite esse nome no Google e você chegará a uma parte importante da história do choro. Uma parte que cobre a segunda metade do século 20, mas que dialoga também com tempos anteriores: os de Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Garoto e Canhoto, só para citar alguns mestres que ele conheceu, antes de se tornar uma das referências do choro em São Paulo. Com seu bandolim, foi um dos principais cultores do gênero musical, principalmente a partir da década de 1970. Fosse apresentando-se em shows, gravando discos com o conjunto Izaías e Seus Chorões ou tocando em programas das TVs Cultura e Bandeirantes.

Por isso é tão surpreendente quando o próprio recusa ser chamado de músico profissional, como o fez na entrevista que deu a este site às vésperas de completar 85 anos, no último dia 7 de junho. É de fato músico amador – e não só porque trabalhou a vida toda em escritórios de contabilidade, mas também, e sobretudo, pelo amor com que fala de música. Como quando relembra o pai, o músico de banda Benedito de Almeida, que lhe ensinou as primeiras notas e planejava ver o filho violinista de orquestra sinfônica. Ou a mãe, a dona-de-casa Adalgisa, que desde sempre incentivou o menino – assim como o irmão dele, o caçula Israel – a mergulhar no gênero musical que era o preferido dela: o choro.

O avô materno é outro personagem importante dessa história: chamava-se José Vicente de Carvalho e era capitão da polícia. Sacou que o neto tinha jeito para a música e presenteou-lhe com um cavaquinho. Mas presente marcante mesmo foi o seguinte: o 78 rotações da Continental com Jacob do Bandolim tocando o choro “Flamengo”, de Bonfiglio de Oliveira. “Não era a primeira vez que eu ouvia um bandolinista: já tinha ouvido Garoto, Amadeu Pinho, Peri Cunha, Luperce Miranda com aquela agilidade toda...”, relembra. “Mas o Jacob, puxa vida... Ele fazia tudo diferente: os trêmulos, os rubatos, a divisão. Aquilo me encantou. Foi quando decidi que meu instrumento ia ser o bandolim.”

Passou a andar com instrumento em punho pelo Parque Peruche, bairro de chorões onde viveu a infância e a adolescência, atrás de rodas e músicos. Como o flautista Benevides, que se vangloriava de saber tocar “Sofres porque queres”, o choro de Pixinguinha – gravado por este no famoso duo com Benedito Lacerda – que “derruba os violões”. “Isso porque o que sobrava pros violonistas eram as frases que o Pixinguinha fazia no saxofone. Quem resolveu esse problema foi Horondino Silva, o Dino Sete Cordas, que se tornou a referência no violão de sete cordas e todos passaram a observar de perto.”

Izaías, por exemplo, o fez ouvindo os discos do Regional do Canhoto – o conjunto que, com a participação de Dino, formatou a sonoridade do acompanhamento de choro a partir da década de 1950. Dos discos deles, a memória guarda especialmente a gravação de “Cuidado violão” (Zezinho). “Conversei muito com o Canhoto, sabe? Dizia pra mim, olha que coisa, que não conhecia nada de cavaquinho – imagina se conhecesse! Dizia, na simplicidade dele, que quem sabia mesmo cavaquinho eram o Esmeraldino Sales, o Xixa... ‘Eles é que sabem, eu tive sorte’, imagine só!”

Outro mestre do cavaquinho que conheceu de perto – e com quem gravou – foi Waldir Azevedo, de quem selecionou “Pedacinhos do céu”. “Esse choro fez muito sucesso, mas poucos sabem que foi gravado no banheiro, como se fosse uma câmara acústica, por iniciativa do próprio Waldir: ele no banheiro e o conjunto no estúdio”, conta o bandolinista. “Por isso o Jacob, que implicava tanto com ele, dizia que esse era um ‘choro latrinado’. Já o Waldir, que admirava o Jacob, respondia com bom humor, rindo: ‘Isso é dor-de-cotovelo dele com o meu sucesso.”

Mais objetiva foi a conversa que Izaías teve com Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, a quem pediu orientações sobre a palhetada de bandolim. “Eu estava começando, meio inseguro com a minha mão direita e às vezes ficava meio confuso com as orientações e palpites que me davam os bandolinistas mais experientes. Até que fui ao Garoto, que me pediu para tocar”, lembra. “Ele me disse que eu estava num bom caminho: ‘Não dê ouvidos a ninguém’.” Das gravações dele, Izaías destaca a de “Um a zero” (Pixinguinha e Benedito Lacerda), “com aquela introdução sensacional”. Outro virtuose nas memórias de Izaías é Laurindo de Almeida, tocando guitarra elétrica em sua “Braziliance”, que o aniversariante define como “o primeiro choro de caráter moderno, com harmonias alteradas”.

Já Radamés Gnattali comparece em sua seleção afetiva como compositor de dois choros dançantes: “Remexendo”, que Izaías prefere tocado por Fon Fon e Sua Orquestra, e “Conversa mole”, nos saxofones de Fernando e Sandoval. Este último instrumentista é lembrado mais uma vez, como intérprete de “Mágoas” (Osvaldo Rosa). “O saxofone e o clarinete são instrumentos muito especiais para mim, não só pelo tanto que gosto do timbre deles, mas também porque eram os instrumentos do meu pai”, explica o veterano chorão, antes de trazer para a roda “Confusão no choro”, interpretado por outro que conheceu, o clarinetista Otaviano Pitanga – também autor da música, em parceria com Castelo.

Mas nem tudo é choro nas preferências musicais de Izaías Bueno em 78 rotações. Entre as exceções estão o baião “Bonitinho”, composição de Mario Vieira solada pelo acordeonista Luiz Gaúcho, e duas faces de um mesmo disco de Linda Batista, o de número 80-0802 da RCA Victor que saiu em 1951 trazendo dois sambas-canção de Lupicínio Rodrigues: no lado A o hit dilacerante “Vingança” e, no B, o manifesto pacífico “Dona Divergência”, assinado também por Felisberto Martins. “São duas interpretações que me tocam muito, não só pela voz incrível da Linda como também pelos solos de violino do Fafá Lemos.”

E Pixinguinha, você conheceu? “Graças a Deus!” Foi na Casa Del Vecchio, a tradicionalíssima loja de música no bairro de Santa Ifigênia, que fechou as portas recentemente e que Izaías conheceu ainda menino, no vaivém de office-boy, levando pacotes e envelopes pelas ruas de São Paulo. “As encomendas passaram a chegar atrasadas, mas eu ganhei ali uma espécie de curso intensivo informal de choro”, relembra o veterano bandolinista, que já tinha tentado contato com Pixinguinha em 1954, quando foi vê-lo tocar no Parque Ibirapuera, durante os festejos pelos 400 anos de São Paulo. “Pouco depois encontrei-o na Casa Del Vecchio e toquei um choro antigo dele, o ‘Paciente’, que andava esquecido”, recorda. “Ele adorou e perguntou assim: ‘De quem é esse choro, meu filho?’ Quando respondi, ele ficou numa felicidade danada. Disse que ia fazer um choro para mim e tudo. Não fez, mas só essa alegria já valeu.”

Mais importante ainda foi o encontro que teve, na mesma Del Vecchio, com Antônio D’Auria, violonista e grande entusiasta do choro em São Paulo a partir da década de 1950. Vendo Izaías em ação, convidou-o a participar das rodas que promovia em sua casa, no bairro Bom Retiro, espécie de bunker do choro quando chegaram a bossa nova e o ieieiê. Logo depois, convidou-o a ingressar em seu regional, o Conjunto Atlântico, com o qual aliás Izaías estreou num estúdio, em fins de 1958, fazendo suas únicas duas gravações lançadas em discos de 78 rotações: os choros “Sururu na cidade” e “Levanta poeira”, ambos de Zequinha de Abreu.

“Me lembro que eu estava muito nervoso, pois antigamente as gravações não eram facilitadas como hoje, quando se grava tudo separado: se um errasse tinha que voltar tudo”, recorda Izaías, que nesta gravação teve as companhias do cavaquinhista Jayme Soares, do pandeirista Oswaldo Bitelli e, nos violões, Juraci Barreto e o próprio Antônio D’Áuria. Nessa época, nosso personagem já era relativamente conhecido nas rodas paulistanas, depois de ter sido um dos destaques na “Noite dos Choristas”, programa da TV Record, realizado m 1955, no qual tocou “Saudações” (Otávio Dias Moreno), com as bênçãos do idealizador e produtor do evento, Jacob do Bandolim.

“Foi o D’Áuria quem me apresentou ao Jacob, dizendo que eu era uma espécie de ‘Jacozinho’. Imagine só a situação em que eu fiquei”, conta Izaías, que custou até se sentir à vontade na frente do ídolo (“Ele era brabo. Metia medo!”), de quem se tornaria amigo com o tempo. “Nunca vi um músico com a interpretação do Jacob. Muitos que conheci tinham mais técnica do que ele, eram mais velozes e tudo. Mas interpretação é outra coisa, sabe?”, define. “O Radamés dizia que o que Jacob tocava não era bandolim: ele tocava mesmo era Jacob, tamanha a expressividade que ele tinha.”

A lembrança de Jacob emociona também por uma memória que Izaías resgata lá do começo da década de 1950, de uma noite qualquer em que voltava do trabalho. “Saltei do ônibus e caminhava para casa quando ouvi um som lindo, maravilhoso. À medida que me aproximava, percebi que o som vinha de lá”, recorda, emocionado. “Minha mãe tinha posto a vitrola no terraço, com o alto-falante virado pra rua. Quando entrei, ela me disse: ‘Comprei esse disco porque adoro esse choro, o ‘Doce de coco’, do Jacob do Bandolim. Quero que você aprenda a tocar pra mim.’”

O filho de D. Adalgisa não só aprendeu a tocá-lo, como também fez dele o primeiro que toca sempre que está numa roda de choro. Já gravação de “Doce de coco” só fez em 2006, no CD triplo “O choro e sua história”, que gravou com o irmão, Israel Bueno de Almeida, no violão de sete cordas. Seis anos mais novo que Izaías, Israel é testemunha de praticamente todas as histórias contadas nesta conversa. Também esteve ao lado do irmão no conjunto Izaías e Seus Chorões, criado na década de 1970, na televisão (como no programa “Choro das Sextas-Feiras”, na TV Cultura) e nos discos, que começou a gravar a partir de 1981.

Memórias a que Izaías recorre constantemente em sua atual rotina de aposentado, não só relembrando histórias como as deste texto, como também socorrendo a quem precisa – como a equipe de música do Instituto Moreira Salles, que tantas vezes recorreu a ele após ter adquirido, em 2001, o acervo de Antônio D’Áuria (saiba mais). No apartamento no bairro Paraíso em que vive com Alice (sua companheira há 61 anos), dedica-se também a organizar seu arquivo musical pessoal e a navegar pelo YouTube, plataforma digital em que costuma ouvir choros – de ontem e de hoje.

“Gosto muito da turma nova, sou amigo de muitos deles e acompanho o que estão fazendo por aí”, diz o bandolinista. “Mas sinto que nem todos têm aquilo que eu mais prezo no choro, que é a alma de chorão.”

Foto: Alice Segura de Almeida

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