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Os 120 anos de um dos ‘inventores’ do samba: Bide, o criador do surdo de marcação

Pedro Paulo Malta

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O samba tem sua data celebrada no dia 2 de dezembro, quando sua história e seu repertório são largamente festejados nos botequins, palcos e até vagões de trem do Rio de Janeiro e outras cidades brasileiras. Mas não seria exagero se o Dia Nacional do Samba fosse festejado em 25 de julho – dia em que nasceu, há 120 anos, um de seus inventores: Alcebíades Maia Barcelos, o Bide, compositor e ritmista de uma importância que contrasta com a maneira discreta com que – em raras entrevistas – falava de seus feitos.

Como o “samba de sambar”, que criou com outros músicos do bairro carioca do Estácio de Sá, na década de 1920, numa cadência mais apropriada para se dançar na rua e nos desfiles de carnaval. Ou as grandes composições que deixou (como as parcerias com Marçal, numa dupla que virou uma espécie de grife do samba), comprovando a fama de ser um dos maiores melodistas – senão o maior – daquela turma. Além disso, foi o criador do instrumento que até hoje segura o ritmo dos desfiles das escolas de samba: o surdo de marcação.

Isso por conta do bloco que ele e outros boêmios inventaram de formar em meados dos anos 1920, nas imediações do Largo do Estácio. “Para fazer raiva nos velhinhos que se reuniam no Café do Compadre, formamos um bloco de sujo sem nome que saía aqui do Estácio, na base do ‘vai engrossando’”, contou ao jornalista Francisco Duarte, que publicou no Jornal do Brasil, em 12-02-1979. “Saíam umas 50 pessoas e chegavam na Praça Onze umas 400. Com ou sem fantasia.”

Até que o grupo passou a sair menos à vontade (“Foi só a roupa, né?”) e, em vez de bloco, começou a dizer que era “escola de samba” – entrando para a história como a primeira agremiação desse tipo. A Bide coube batizar o grupo: “Chamava-se Deixa Falar, como debique (deboche) às comadres da classe média do bairro que viviam chamando a gente de vagabundos”, contou, na mesma matéria do JB. “Malandros nós éramos, no bom sentido. Vagabundos não!”

Sola, couro e surdo 

No entanto, Bide era um dos poucos da turma cujo sustento vinha não de jogos de azar ou da cafetinagem na zona do Mangue, mas de uma profissão. Ele trabalhava na Fábrica Bordallo, como sapateiro – ofício que aprendeu logo que chegou ao Estácio, menino ainda, vindo de Niterói, onde nasceu. “Eu, com 15 anos, já sabia fazer um sapato do princípio ao fim: montar o couro, fazer a sola, tudo”, contou no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS), num depoimento em 21-03-1968. Nesta mesma gravação atribuiu o nome Deixa Falar a uma gozação com outros redutos de samba: “A gente tinha pinimba com Mangueira, com Oswaldo Cruz.”

Também aproveitou para coletivizar a fundação da “primeira escola”, como que respondendo ao compositor mais conhecido da turma, Ismael Silva, que nas entrevistas que dava era mais chegado a conjugar os verbos na primeira pessoa – do singular. “O Ismael não foi criador do Deixa Falar. Foi um grupo”, afirmou no MIS. “Ele esquece que eu sou mais antigo do que ele lá?! Eu fui pro Estácio com nove anos, vivo lá até hoje. Lembro quando ele chegou, vindo de Catumbi.”

Outra contribuição de Bide para o grupo – que também tinha Nilton Bastos, Sílvio Fernandes (vulgo Brancura), Oswaldo Vasques (o Baiaco) e Edgar Marcelino dos Passos (o Mano Edgar), entre outros – foi a criação de um instrumento que garantisse a marcação do ritmo nos desfiles da Deixa Falar. “Quem inventou o surdo fui eu”, disse ao jornalista Sérgio Cabral, como se lê no livro “As escolas de samba: o que, quem, como, quando e por quê” (Ed. Fontana, 1974). “Peguei uma lata de manteiga, redonda, botei aros, encourei e levei pro Deixa Falar.” 

“Eu fiz quatro surdos”, detalhou ao jornalista Juarez Barroso, numa entrevista em 1966 que o JB publicou em 25-03-1975. “A gente tinha muita pastora, muita gente. E era só pandeiro, tamborim. Precisava do surdo para chamar atenção do coro que ia na frente, manter o ritmo.”

A voz do Estácio

E teve ainda a contribuição com música: seu samba “A malandragem” foi o primeiro da turma lançado em disco, em 1928, inaugurando a leva de composições do Estácio gravadas pelo cantor mais popular da época, Francisco Alves. “Eu fiz um samba, chamado ‘A malandragem’, que tocava em tudo que era gafieira. O Chico ouviu e foi me procurar. Disseram que eu estava na gafieira Estrela Dalva, no Rio Comprido”, relembrou Bide na entrevista a Juarez Barroso. “Por coincidência, a orquestra estava tocando meu samba quando ele chegou.” 

Quando o disco saiu, em fevereiro de 1928, Bide se chateou ao não ver seu nome no selo – em seu lugar, quem assinava a autoria do samba era o próprio Francisco Alves, que – prática comum na época – volta e meia aparecia como “compositor” dos sambas que gravava, às vezes tendo como parceiro o verdadeiro autor. Já no samba “Fui louco”, lançado por Mário Reis em 1932, a chateação foi outra: nas entrevistas que deu, Bide nunca reconheceu a participação de Noel Rosa – que era frequentador e seguidor das rodas do Estácio – nesta composição. “Noel nunca fez parte desse samba”, garantiu no MIS. “Esse samba é meu.”

Menos mal que entre os parceiros confirmados não faltam nomes do primeiro time. Como Ataulfo Alves, que ainda trabalhava como atendente de farmácia quando Bide o levou pela primeira vez a uma gravadora, a Victor, onde aliás a cantora Odete Amaral gravaria em 1938 o samba “Não mando em mim”, dos dois. Pois foi o próprio Ataulfo – como cantor – que lançou num disco de 1942 “Não posso viver sem ela”, composição de Bide com o mangueirense Cartola. Já Aracy de Almeida deu voz a muitas composições suas – de sambas carnavalescos, como “Orgia e nada mais” (dele com Haroldo Lobo, 1938), a marchinhas, como a junina “Santo Antônio, São Pedro, São João” (com Herivelto Martins, 1935). E da parceria com o baterista Walfrido Silva um dos destaques é o samba melodioso “O teu olhar me inspirou”, cantado em disco pelo grande Silvio Caldas, em 1934.

E teve ainda parceria com Benedito Lacerda, que antes de se tornar um dos maiores flautistas da música brasileira, aprendeu samba no Estácio, onde foi viver quando chegou de sua cidade natal, Macaé (RJ). Nada mais natural que ele – que desfilava como ritmista na Deixa Falar – fizesse parceria com vizinhos como Bide, com quem assina quatro composições, entre elas “Nasci no samba” (1932). “A gente tinha um conjuntozinho brabo, que tocava para comer e beber”, contou Bide a Juarez Barroso, relembrando o tempo em que tocava cavaquinho para acompanhar Benedito, que ainda “estava aprendendo a tocar flauta”.

Nenhum desses encontros, no entanto, deu tão certo quanto o que teve com Armando Vieira Marçal, um lustrador de móveis com quem formou uma parceria – Bide e Marçal – fundamental na história do samba. Marçal era oriundo de Ramos, bairro suburbano da zona da Leopoldina, mas naqueles primeiros anos da década de 1930 andava pelos arredores do Estácio, mais precisamente no Catumbi. 

“Ele era compositor daqueles blocozinhos lá. E eu já tinha intimidade com ele, antes da gente ser parceiro”, contou Bide no depoimento ao MIS, antes de relembrar a abordagem que o amigo lhe fez: “‘Você, que tem gravado diversos sambas, podia gravar comigo...’ Aí, ele cantou o estribilho pra mim. Disse a ele: ‘De fato, é bonito e eu já ouvi.’ Eu fiz a segunda parte e nós gravamos.”

Parceria

O relato, aparentemente corriqueiro, assume outra importância quando sabemos que o samba em questão – marco inicial da parceria – é “Agora é cinza”, que Mário Reis gravou em disco em fins de 1933 e venceu o concurso de músicas carnavalescas da Prefeitura do Distrito Federal em 1934. Com este samba choroso, eleito o mais bonito de todos os tempos numa enquete realizada pelo produtor Marcus Pereira em 1975, estavam abertos os trabalhos da dupla que abasteceria de sucessos cantores e mais cantores da chamada era do rádio.

Como Francisco Alves, que emplacou “Meu primeiro amor” na folia de 1938, a mesma em que Carlos Galhardo lançou “Sorrir”, vice-campeã no concurso de músicas carnavalescas daquele ano. Galhardo também foi responsável pelo lançamento de outro grande samba da dupla, “Não diga a ela minha residência”, em 1944. Sem contar Orlando Silva, que em 1940 fez sucesso com “A primeira vez”, o samba que duas décadas depois levou o Estácio à bossa nova, através da famosa regravação de João Gilberto.

Menos minimalista é o seresteiro Gilberto Alves, que fez bonito em tantos sambas da dupla. Como nos melodiosos “Louca pela boemia” (1941) e “Violão amigo” (1942), este que foi o possível inspirador da melodia inicial do “Desafinado”, de Tom Jobim e Newton Mendonça. E nos embalos carnavalescos de “Nunca mais” (1942), “Vila Isabel” (1943) e “Quem vem lá” (1947), este último dedicado ao “velho Estácio” e sua “escola primeira”. Mais à vontade é o Gilberto Alves que se ouve nas valsas da dupla, como a derramada “Prece à lua” (1945).

Já as crônicas em forma de samba Bide e Marçal entregaram aos principais conjuntos vocais da época. Primeiro aos Anjos do Inferno, que lançaram “Que bate fundo é esse” (1941) e “Madalena” (1942). Depois, aos Quatro Ases e Um Curinga, que trouxeram para o disco “Prefiro viver cansado” (1945), “Barão das cabrochas” (1946) e “Maria do Babado” (1948).

Bide sem Marçal

Marçal não viveu a tempo de ver este último samba gravado: faleceu em 20 de junho de 1947, aos 44 anos, de um edema pulmonar que culminou numa parada cardíaca enquanto conversava com amigos, no estúdio da RCA Victor. Também não testemunhou a trajetória artística do filho, Newton, que fez história no samba como percussionista e cantor – com o nome artístico de Mestre Marçal – sempre observado de perto pelo padrinho, Bide. “Cansei de ver os dois compondo”, contou Marçal a Sérgio Cabral, numa entrevista em 1979. “Bide tocando cavaquinho e meu pai batucando na mesa. Era um pedaço de papel pra lá, outro pedaço pra cá, até que os dois ficavam cantando para decorar.” Em 1978, o cantor e percussionista homenageou as duas referências musicais com o ótimo LP “Marçal interpreta Bide e Marçal”, gravado na EMI Odeon (ouça).

Já Bide, sem Marçal, seguiu compondo cada vez menos, dedicando-se exclusivamente à atividade de percussionista – embora já não tivesse o tamborim do parceiro para timbrar com o seu nas gravações que fazia e na Rádio Nacional. Recluso, rememorava seu passado esporadicamente (como nas entrevistas que serviram de base para este texto) e observava a “evolução” do mercado fonográfico. “Eu agora escuto dizer que fulano vai receber um milhão, não sei quanto”, queixou-se na entrevista a Juarez Barroso, em meados da década de 1960. “A gente recebia uma mixaria. Eu e o falecido Marçal, a gente nunca teve sorte mesmo. Fazia sucesso, mas vendia pouco.”

Sentia orgulho do Estácio, onde morava desde a infância e pretendia ficar até o fim da vida. No entanto, foi “levando saudades”, como na letra de “Adeus Estácio” (samba de 1941, em parceria com Darci Oliveira), que teve que deixar o velho bairro, em 1973. Praticamente cego e paralítico, recolheu-se no Conjunto Residencial dos Músicos, no bairro de Inhaúma, onde morou até 18 de março de 1975, quando faleceu, a quatro meses de completar 73 anos, sem obituários na imprensa ou notícias de homenagens – como por exemplo um cortejo fúnebre ritmado na batida de seu invento, o surdo. Uma morte “tão discreta, como seus últimos anos de vida”, noticiou o JB (25-03-1975), uma semana após a partida do grande sambista.

Foto: Coleção José Ramos Tinhorão / IMS

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