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Caetano Veloso, 80 anos: Santo Amaro, as vozes do rádio e outras memórias em 78 rotações

Pedro Paulo Malta

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“Meu arquivo é todo emocional. É a memória natural, né? Porque tem uma coisa: a memória natural é muito forte. Mais forte do que a memória do arquivo.”

A reflexão de Caetano Veloso no filme “Circuladô de fulô” (José Henrique Fonseca e Walter Salles Jr., 1992), foi a senha para registrarmos sua chegada aos 80 anos, no próximo 7 de agosto, aqui no site Discografia Brasileira. Pois, se por um lado não há composições ou gravações do aniversariante em nossa base de dados – que reúne lançamentos da música brasileira em discos de 78 rotações (1902-1964) – por outro não faltam memórias e referências que permeiam seu universo. A começar por sua cidade natal, cantada por Haydée Marcondes num disco de 1940 que trazia um “samba estilo baiano” de nome “Santo Amaro”.

Quem me dera Santo Amaro
Algum dia eu visitar
Santo Amaro é boa terra
Terra de se vadiar

Pois é nesta vadiagem que entra o samba-de-roda: expressão cultural característica de Santo Amaro e outras cidades do Recôncavo Baiano, com seus estribilhos cantados em coro e seu ritmo marcado nas palmas, no prato e faca e no reco-reco, como em tantas gravações feitas por Edith do Prato, Roberto Mendes (ambos santo-amarenses) e Roque Ferreira, este baiano de Nazaré das Farinhas. Manifestação que, muito antes de ser reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade (2005), serviu de matriz para o samba que o Rio de Janeiro conheceu no começo do século 20 – como não reconhecer a levada baiana em exemplares cariocas como o samba-chula “Quebra morena”, de Heitor dos Prazeres?

Dentro do sobrado de número 59 da Rua Conselheiro Saraiva (que em Santo Amaro todos chamavam pelo antigo nome, de Rua Direita), a música chegava pelo rádio e pelas memórias de Dona Canô (apelido de Claudionor Vianna Telles Velloso), mãe de sete, além de uma filha de criação. Antepenúltimo da prole dela e de Seu Zezinho (José Telles Velloso, agente postal telegráfico), é na voz aguda e certeira da mãe que Caetano aprende boa parte do cancioneiro brasileiro dos anos 1930 e 40. “'Cabelos brancos', 'Juramento falso' são canções que eu sei desde menino. Muitas outras”, afirma em “Circuladô de fulô”. “Minha mãe cantava e eu aprendia com ela. E como ela via que eu gostava e ela gostava que eu gostasse, ela me ensinava mais.” 

Herança que ele sublinha num dos versos mais íntimos – “Minha mãe é minha voz” – de uma canções que dedicou às lembranças de Santo Amaro, “Genipapo absoluto”, na qual aliás estão duas referências ao repertório de Dona Canô: os sambas “Infidelidade”, citado na letra e no tema inicial da melodia, e “Mané Fogueteiro”, lembrado no verso “A Rosa também”. A segunda música – composição de João de Barro gravada por Augusto Calheiros em 1934 – é cantarolada por Caetano com a mãe num dos momentos emocionantes do já citado filme de 1992.

No documentário “Pedrinha de Aruanda” (Andrucha Waddington, 2006), a própria Dona Canô salienta o espaço da memória que o filho dedicava à música: “Tudo que tocava no rádio ele aprendia.” Já numa série de depoimentos gravados em vídeo para seu site oficial (2012), o próprio Caetano conta como esta precocidade rendeu uma história familiar importante para a música popular brasileira. “Você vê que eu não tinha completado quatro anos e sabia uma canção cujo título eu quis que fosse o nome da minha irmãzinha que nasceu.” Foi do samba-canção “Maria Betânia”, que Nelson Gonçalves gravou em 1945, que o menino tirou a ideia para o nome da irmã cantora, Maria Bethânia, nascida em junho do ano seguinte.

Já de 1950 é a lembrança de quando ouviu pela primeira vez “Boiadeiro” e outros sucessos de Luiz Gonzaga, no programa que o Rei do Baião comandava ao vivo pela Rádio Nacional e o menino ouvia lá em Santo Amaro. Até que, em sua primeira apresentação pública, aos oito anos, foi cantar “Touradas em Madri” no programa de calouros da emissora local e entrou em um tom diferente do arranjo que era executado pela orquestra, sendo desclassificado. “Na adolescência, porém, eu já era o cantor favorito de todo o mundo no ginásio, mas ainda hoje temo errar a tonalidade como no episódio do ‘Toureiro’” escreveu em seu livro “Verdade tropical” (Companhia das Letras, 1997).

Pouco depois, seria mais bem-sucedida a primeira gravação, amadora, como contou na série de depoimentos para seu site: “Tinha um pessoal lá em Santo Amaro que comprou um aparelho que podia gravar disco. Podia gravar no acetato diretamente: você cantava no microfone e a agulha gravava no acetato. E aí o pessoal, como achava que eu cantava bonitinho, eu tinha por aí uns dez anos, pediu pra eu cantar.” A música escolhida foi “Feitiço da Vila” (Noel Rosa e Vadico), como se pode ouvir neste trecho do filme “Caetano in Bahia” (Juan Mandelbam, 1994).

Noel e Vadico marcam presença também na obra de Caetano: foi em resposta ao samba “Pra que mentir”, parceria deles de 1939, que ele compôs “Dom de iludir”, a pedido da cantora Maria Creuza, em 1977. A gravação original de “Pra que mentir” é de Sílvio Caldas, o cantor que Caetano elegeu, na adolescência, como seu preferido entre aqueles da chamada era do rádio. “Eu gostava de ouvir as canções que Francisco Alves cantava. E depois Silvio Caldas, por cujo estilo, quando eu fui crescendo mais, eu me apaixonei”, diz em um dos depoimentos para seu site. “Porque ele tinha uma dignidade assim. Um negócio incrível no jeito de emitir as frases que ele cantava, as palavras. Parecia que havia uma sinceridade. E uma falta de ornamento convencional que os outros tinham.”

Orlando Silva só depois ganhou uma atenção especial, como Caetano conta na mesma série. “Eu não gostava tanto dele como vim a gostar depois que o João Gilberto apareceu”, diz, revelando a ponte feita pelo cantor e violonista baiano – sua maior referência na música popular brasileira – com a maior referência dele, João. “Seu estilo vem de Orlando Silva, o grande modernizador do canto brasileiro”, escreveu Caetano em “Verdade tropical”. Em seus discos, regravará músicas lançadas originalmente pelo Cantor das Multidões, como o samba “Lealdade” (Wilson Batista e Jorge de Castro) e a valsa “Rosa” (Pixinguinha e Otávio de Souza).

Mas nada se compara à primeira vez que ouviu João Gilberto, em 1959, aos 17 anos, como contou no livro “Verdade tropical”: “Ainda morava em Santo Amaro, e foi um colega de ginásio quem me mostrou a novidade, que lhe parecera estranha e que, por isso mesmo, ele julgara que me interessaria: ‘Caetano, você, que gosta de coisas loucas, você precisa ouvir o disco desse sujeito que canta totalmente desafinado, a orquestra vai pra um lado e ele vai pro outro.’” A história prossegue, como ele relata no filme “Circuladô de fulô”: “Eu fui no Uirapuru, que era um clube que tinha em Santo Amaro, só pra ouvir esse tal homem estranho. E quando eu ouvi eu fiquei deslumbrado.”

João Gilberto e o samba “Chega de saudade” – que Caetano e seus amigos ouviam em loop em um bar na rua de trás da Prefeitura de Santo Amaro – foram para ele “uma visão quase que reveladora do sentido da estética”, como definiu na série de vídeos para seu site. “Eu achei que era tudo o que eu esperava de moderno, mas se dando naquilo que era mais vivenciado por mim cotidianamente, que era a canção popular.”

Outro baiano referencial é Dorival Caymmi, que Caetano define em “Verdade tropical” como “meu compositor favorito”.  Dele, Caetano conta em outro trecho do livro que planejava gravar “Dora” numa das faixas do disco-manifesto “Tropicália ou Panis et circencis” (Philips, 1968), mas desistiu. O samba-canção, no entanto, é citado em outra faixa, “Enquanto seu lobo não vem” (do próprio Caetano), em cujo arranjo, de Rogério Duprat, um coro feminino canta “os clarins da banda militar”, numa referência à ditadura vigente naquele momento.

Já na canção “Terra” a citação a Caymmi é feita com a segunda parte de “Você já foi à Bahia”, cujos versos são acoplados à melodia de Caetano, como uma das estrofes da canção. Gravada pela primeira vez em 1978, pelo próprio Caetano, “Terra” remete ao início de 1969, quando, preso no Quartel dos Paraquedistas, na Vila Militar de Deodoro (zona oeste do Rio de Janeiro), viu as primeiras fotos do planeta Terra, feitas por satélite, numa edição da revista Manchete. 

Entre as lembranças dos 54 dias que passou preso pelo regime militar (de 27-12-1968 a 19-02-1969) estão também músicas antigas. Como “Súplica”, que cantava na solitária do Batalhão da Polícia do Exército, onde ficou preso antes de ser levado para Deodoro, atendendo a “um vizinho de cela, que era um homem mais velho, que pedia que eu cantasse umas músicas do Orlando Silva, de uma cela pra outra”, recorda no filme “Circuladô de fulô”. “E ele sempre chorava. Eu só ouvia a voz, acho que era um velho comunista.” E “Fracasso”, que cantou, já na Vila Militar, para um oficial fã de Francisco Alves. Mas cantava enfatizando a dramaticidade dos versos de Mário Lago, “interpretando as palavras da letra como referentes à minha situação”, como escreveu em “Verdade tropical”.

Fracasso, por compreender que devo esquecer
Fracasso, porque já sei que não esquecerei
Fracasso, fracasso, fracasso, fracasso afinal
Por querer tanto bem e me fazer tanto mal

Já do exílio em Londres, onde viveu entre 1969 e 1972, uma das lembranças musicais é “Manhã de carnaval”, tema de “Orfeu negro”, o premiado filme do francês Marcel Camus que, inspirado na peça “Orfeu da Conceição” (Vinicius de Moraes), mostrava o Brasil com um “exotismo fascinante”, o que levou aos risos a plateia do Cine Tupi, em Salvador, onde Caetano assistiu ao filme, na época de seu lançamento (1959). Uma década depois, seguia como uma das principais referências do país no exterior, como ele pôde constatar na Inglaterra. “Sentíamos ainda um pouco de vergonha, mas atender ao pedido de cantar ‘Manhã de carnaval’ muitas vezes compensava”, escreveu em “Verdade tropical”.

No mesmo livro de memórias, ele relembra a autorização que recebeu para vir ao Brasil no início de 1971, para comparecer aos festejos da família pelos 40 anos de casamento de seus pais. Na ocasião, teve que se apresentar (era a contrapartida para a autorização) num programa de TV: no caso, “Som Livre Exportação”, da TV Globo, no qual cantou sua versão de voz e violão para “Adeus, batucada”, “o genial samba de Sinval Silva que fora a mais bela gravação de Carmen Miranda”. O restabelecimento do legado da Pequena Notável e outros artistas que haviam sido sombreados pela bossa nova – como Vicente Celestino e Luiz Gonzaga, entre outros – era uma das retomadas que a Tropicália de Caetano, Gilberto Gil e cia. propunha no fim da década de 1960.

Nesta época, anterior à prisão e ao exílio, Caetano vivia em São Paulo, no 20º andar de um edifício na Avenida São Luiz, pertinho do cruzamento que ele tornaria famoso – das avenidas Ipiranga e São João – no samba “Sampa”, de 1978. A composição, que se tornará uma espécie de hino informal da cidade, tem entre suas referências “Ronda” (Paulo Vanzolini), que tem a melodia de seu último verso (“Cena de sangue num bar da Avenida São João”) aproveitada no desfecho da homenagem a São Paulo: “E novos baianos te podem curtir numa boa”.

Pois foi neste apartamento – num gramofone antigo comprado junto com uma coleção de discos de 78 rotações – que Caetano reconsiderou Orlando Silva e intensificou as audições dos discos de Carmen, de cujo repertório regravará sucessos como “Disseram que eu voltei americanizada” e “O samba e o tango”. “Talvez mais do que o estéreo do quarto do som, esse gramofone era usado com volúpia de curiosidade e prazer estético”, escreveu em “Verdade tropical”. Mais adiante no livro, destaca também o quanto gostou de ouvir, nesta mesma época, o samba “Camisa amarela” (Ary Barroso), com Aracy de Almeida, numa gravação “que rivalizava com as melhores de Carmen”.

Caetano estreitou laços com Aracy, para quem chegou a compor. Regravou este e outros sambas de Ary: os românticos, os patrióticos e, especialmente, os dedicados à Bahia. E a música popular brasileira seguiu como protagonista em seu olhar e sua escuta, seja através de tantas outras referências – as de ontem e as de hoje, as nacionais e os foreign sounds – agregadas em seu universo, seja em tudo que reprocessou e criou a partir delas, numa obra que, embora sempre atual, nunca deixa de se relacionar com o passado. 

Nosso arquivo emocional agradece.

 

Foto: Caetano Veloso e sua mãe, Dona Canô / Coleção José Ramos Tinhorão / IMS

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