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Evocando o ‘velho’ Raul Moraes: 85 anos sem um mestre da música e do Carnaval de Pernambuco

Fernando Krieger

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“Quando chegava o Carnaval, os blocos e troças disputavam a regência de Raul Moraes. (...) O Bloco das Flores, Pirilampos, Apôis Fum e os melhores cordões carnavalescos que o Recife já possuiu faziam questão de uma composiçãozinha... e o Raul dava porque gostava de todos. (...) o insigne maestro, apesar de doente, jamais abandonou o papel e o lápis, deixando inéditas inúmeras composições, que dirão muito bem do valor intrínseco do bom músico, do bom amigo, do bom artista que foi Raul Moraes”. O texto publicado no Jornal do Recife de 09/09/1937 traduzia bem o sentimento de tristeza provocado pelo falecimento, ocorrido no dia 07/09 naquela capital, de um dos maiores valores da cultura pernambucana: o recifense Raul Corumila de Moraes, aos 46 anos.

“Nasceu no dia 2 de fevereiro de 1891, na Rua da Soledade nº 25, no bairro da Boa Vista. Era ele muito devotado pelos estudos, setor em que sempre se destacou, tanto que, ao completar 20 anos, já estudava Direito e tinha diploma de pianista (...). Foram seus professores de música Marcelino Cleto e João Bandeira e, de piano, Artur Marques”, recordou seu irmão, o também compositor Edgard Moraes, em texto escrito para o long-playing “Edgard e Raul Moraes – Glórias do Carnaval de Pernambuco”, lançado pela Rozenblit em 1974.

Raul tinha somente 17 anos quando sua valsa “Estephania” foi publicada em 1908 na revista Polyantho, do Atheneu Literário Recifense. No ano seguinte, teve o dobrado “Arthur Marques” – homenagem a seu professor de piano – estreado no jardim da Praça da República pela banda do 2º Batalhão do Regimento Policial. Era então anunciado pelo Jornal do Recife de 19/09/1909 como o “conhecido e apreciado pianista Raul Moraes”. Segundo Edgard, o irmão começou cedo a “fazer uso da arte como pianista, tocando nas melhores casas de diversão da cidade, tais como: Café Chic, Juventude e Cine-Teatro Helvética”.

Foi neste último que várias de suas composições receberam as primeiras audições, em apresentações musicais que antecediam as exibições dos filmes ou ocorriam entre uma fita e outra. Ali o público pôde conhecer, em 1910, o maxixe “No remeleixo” – às vezes grafado na imprensa da época como “O remeleixo” –, a polca “Mimosa” e o dobrado “13 caçadores”. Neste mesmo ano, de acordo com Edgard Moraes, Raul foi contratado como pianista pela dupla de cançonetistas Os Geraldos, acompanhando-os em excursões “pelos estados do Norte e Sul do país” e também no exterior, viajando pela Argentina e até para Portugal.

Edgard, em seu texto, informou que, durante uma apresentação do duo no Rio Grande do Sul em 1910, Raul, “já considerado um grande maestro e excelente professor de piano, recebeu convite da Academia de Canto e Música de Porto Alegre para lecionar naquele estabelecimento de cultura e arte musical”. Ali permaneceu como professor até dezembro de 1922, quando retornou para sua cidade natal.

No período que passou na capital gaúcha, teve editadas algumas de suas composições, sempre noticiadas pelo Jornal do Recife: a “valsa espanhola” “Murmúrios da noite”, “ultimamente instrumentada para a orquestra do Helvética, onde tem conquistado entusiásticos aplausos” (segundo a edição de 06/10/1912); a valsa “Dor suprema” (que o periódico destacou em 18/02/1913); e mais uma valsa, “Anseios d’alma” (citada pelo jornal em 17/05/1914). Também viu suas obras chegarem ao disco, uma delas pela voz de Geraldo Magalhães (integrante da dupla Os Geraldos), em 1913, e pelo Grupo Sulferino: o samba carnavalesco “Iaiá me diga” (“Se isso é pra casar / Ou só pra entreter”). Já “Dor suprema” ganhou três registros: o do cantor Bahiano, em 1915, e dois instrumentais, feitos em 1916 pela Banda do Corpo de Bombeiros e pelo Grupo Carioca.

Dias após seu retorno ao Recife, mandou publicar um anúncio no jornal A Província de 28/12/1922, sob o título “Maestro Raul C. Moraes”, onde se qualificava “Com prática de teatro de variedades, revistas etc. tendo dirigido as orquestras de diversos cinemas e teatros do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Pelotas, dispondo de vastíssimo e escolhido repertório moderno, adquirido na Europa e no Sul do país, encarregando-se de orquestrações e orquestra para cines, teatros, bailes e banquetes (...)”. Também oferecia seus serviços no Diário de Pernambuco (03/01/1923): “Maestro e compositor – (...) previne as exmas. famílias (...) que leciona música, piano e solfejo pelos métodos mais modernos”.

Não demorou para se firmar em sua cidade natal como requisitado regente e arranjador. Em 1924, a sociedade recreativa Charanga do Recife contava com um “afinado conjunto musical de instrumentos de cordas sob a batuta do competente maestro Raul Moraes”, informava o Jornal do Recife de 19 de agosto. No mesmo ano – e pelo menos até o fim desta década –, passou a reger a orquestra que fazia a ambientação dos filmes mudos apresentados no Cinema São José. Com outros compositores – entre eles Nelson Ferreira –, participou da trilha sonora do filme “História de uma alma” (1926), da companhia Vera Cruz. Também se destacou no teatro, compondo para revistas, revuettes (gênero que promovia a fusão da revista com o cabaré) e burletas (comédias musicais): “Vou ali e já volto” (1926), “Boa noite” (1927), “Noites de novena” (1928).

Raul Moraes é autor de uma obra bastante diversificada, como se depreende da leitura dos jornais pernambucanos das décadas de 1920 e 1930. Neste período, pelo menos três dezenas de composições são mencionadas pelos periódicos locais, como o Jornal do Recife, A Província e o Diário de Pernambuco, mostrando que o seu talento se espraiava pelos mais variados gêneros: valsa, tango, marcha, marcha-canção, samba, fox-trot, fox-blue, two-step, mazurca... A canção “Na praia” recebeu duas gravações, a de Augusto Calheiros com os Turunas da Mauriceia em 1927 e a de Gastão Formenti no ano seguinte; também em 1928, Francisco Alves levou ao disco a canção “Ah! Tudo passa na vida”; em 1930, Abigail Parecis lançou mais uma canção, “O beijo”, e Stefana de Macedo compareceu com o coco “Lenhadô”.

No entanto, foi como compositor de frevos de bloco que Raul Moraes se imortalizou na história da música popular e no coração dos eternos foliões. “No início dos anos vinte, (...) começaram a surgir no Recife os blocos carnavalescos que assim vieram acrescentar ao mosaico folclórico de então mais um gênero musical, a marcha-de-bloco”, escreveu Leonardo Dantas Silva no Diário de Pernambuco de 10/02/1996, acrescentando: “era o complemento que estava a faltar ao frevo instrumental e ao frevo cantado das ruas”. A primeira agremiação a surgir, lembra Dantas, foi o Bloco das Flores Brancas (1920), logo renomeado Bloco das Flores, que “veio a ser famoso pelo concurso do renomado musicista e compositor Raul Moraes”.

O mesmo periódico, em sua edição de 13/01/1924, afirmava que, até aquele momento, “o simpatizado bloco” já tinha prontas “as seguintes canções: ‘Ela não me qué...’ – ‘Fica aí pra ir dizendo...’ – ‘Regresso’ – ‘Marcha das flores’ – ‘Mágoas de Pierrô’ – ‘Andorinha’ – ‘O sabiá’ – ‘Ai tamborete’ – ‘Iaiá me diga...’ – e ‘Siá Maricota’ (versos e músicas de todas estas do maestro Raul C. Moraes)”, e ainda “Alegria das flores”, com letra de João Pyrrho, diretor da corporação. O compositor já começava a levar para as ruas alguns dos frevos que iriam figurar entre os maiores clássicos do Carnaval pernambucano.

Entre estes, a “Marcha da folia”, “marcha de maior sucesso do Carnaval de 1924”, segundo A Província de 13 de maio daquele ano. “Bloco das Flores por onde passa / Semeia com tal graça ao som de lindas canções / Os esplendores dessa alegria / Que as almas extasia e apaixona os corações / Viva a folia do Carnaval / Intensa alegria, sem outra igual / Que olvidar [esquecer] faz a dor ferina / Que nos ensina a sorrir e amar”. Havia nas letras dos frevos de bloco de Raul Moraes um sentimento profundo de tristeza, um lamento pelo fim do Carnaval e pela volta à vida real, à dura realidade que impunha uma “dor ferina” às pessoas: “Temos na vida só dissabores / Tristezas, amargores e a desilusão final / Mas de vencida o mal levemos / Esqueçamos que sofremos divertindo o Carnaval”.

O frevo de bloco, originalmente nomeado marcha de bloco, costumava ser também chamado de marcha-regresso, “o frevo de tom lamentoso cantado alta noite pelos passistas cansados, quando de volta ao seu bairro”, explicou José Ramos Tinhorão na sua “Pequena história da música popular” (São Paulo: Círculo do Livro, s. d.). Raul Moraes compôs, para o Bloco das Flores, uma marcha apropriadamente intitulada “Regresso”, onde os foliões se despediam da doce ilusão do Carnaval. Seu refrão diz: “Adeus, adeus, boa gente / Que já cantamos bastante / Parte o bloco assim contente / Orgulhoso e radiante / Bloco das Flores faceiro / Tem na festa a primazia / E adeus, que o bando brejeiro / Leva o Rei Momo em folia”. Este frevo seria alçado à posteridade mais de três décadas depois pelas mãos do genial compositor pernambucano Nelson Ferreira, como se verá mais adiante.

Raul Moraes viu pouquíssimas de suas produções carnavalescas chegarem ao disco. “Regresso” não foi uma destas, embora haja uma música com esse nome na sua discografia em 78 rpm: na verdade, a “Regresso” interpretada por Januário de Oliveira em 1930 é outra composição, originalmente intitulada “Regresso dos Batutas”, cuja letra foi publicada em A Província de 26/01/1929. Feita para o bloco Batutas da Boa Vista, foi regravada no LP de 1974 sob o título “Batutas brejeiros”: “Passando os Batutas de regresso / Deixam impresso, afinal, nos corações / Todo o esplendor que inspira o amor / Com as canções do Carnaval / Tristonhos gemem nossos violões / Foliões a lembrar / Deixa saudade o Carnaval (isto é fatal!) / E uma vontade de chorar / Escutai na harmonia dessa canção / A recordação de uma alegria que passou / E os Batutas brejeiros já vão embora / Chegou a hora e tudo se acabou...”.

Aclamado sócio benemérito dos Batutas da Boa Vista em 13/03/1927, fez para o bloco uma de suas mais famosas criações: “Sou de Pernambuco”, “cognominada de ‘A Marselhesa’ do Carnaval de 1933”, segundo o Jornal do Recife de 16 de fevereiro daquele ano. O Príncipe das Marchas de Bloco abrilhantou o repertório de diversas agremiações pernambucanas, como os Pirilampos de Tejipió – que ganhou dele vários frevos, entre eles o célebre “Adeus dos Pirilampos”, para o Carnaval de 1926 –, o Apôis Fum (“Saudade eternal”) e o Príncipe dos Príncipes.

“O maestro Raul Moraes diz que sempre teve pouca sorte em concurso. Entrou em diversos, promovidos pela ‘A Rua’, o ‘Jornal do Commercio’ e outros, tendo saído sempre desiludido”, entregava o repórter do Diário de Pernambuco de 20/10/1933. De fato, o compositor sempre batia “na trave”. Em 1927, ficou em segundo lugar com “Eu só digo a você”, perdendo para Nelson Ferreira, autor de “Eu não vi!”; em 1928, obteve o terceiro lugar com “Cruzes, figa pra você!” (de novo Nelson Ferreira foi o campeão, com a famosíssima “Não puxa Maroca”); mais adiante, em 1936, um novo vice-campeonato com “Ah, quando o papai souber...”: o primeiro lugar foi dividido entre “No passo” e “Palhaço”, ambas de um mesmo autor – é preciso dizer quem foi?

Desse lote de músicas para concursos, “Eu só digo a você” foi levada ao disco em 1930 por Ildefonso Norat, e “Cruzes, figa pra você!” chegou às lojas no mesmo ano pelas mãos e pela voz de Francisco Alves, que no outro lado interpretou mais um frevo-canção do mesmo autor: “Aguenta quem pode” (os “vagalumes” mencionados na letra são uma referência ao bloco Pirilampos de Tejipió). Este foi o ano mais abundante para Raul Moraes em termos de registros sonoros: além dessas três músicas, da já citada “Regresso” (a dos Batutas da Boa Vista) e das gravações feitas por Abigail Parecis e Stefana de Macedo, o compositor viu mais seis criações suas ganharem vida em 78 rpm.

Paraguassu lançou três: o samba “Meu bem, vem cá”, o maxixe “Tá tudo se acabando” – ambas cantadas em duo com Zilda Moraes – e a canção “Rosa do Sul”. Januário de Oliveira ficou com duas marchas: “Eu só gosto é de você” e “Estás zangadinha”, a segunda em dupla com Elsie Houston. Esta última emprestou ainda sua bela voz para a modinha “Por teu amor por ti”. Foi 1930 também o último ano em que o maestro teve suas composições registradas em discos de 78 rpm.

Edgard Moraes, que iniciou seus estudos de música com o irmão mais velho, tinha 32 anos e já era um compositor de renome quando Raul faleceu. Foi ele quem inaugurou, em 1938, uma série de homenagens póstumas recebidas por Raul Moraes, com o frevo de bloco – primeiro de inúmeros que viria a fazer – “Recordação do mano” (citado por ele no texto do LP de 1974). Em 1951, seu frevo de rua “Saudades de Raul Moraes” seria gravado por Zaccarias (Aristides Zacarias) e sua orquestra; e, em 1961, o Bloco Mocambinho na Folia lançaria uma de suas obras-primas: “‘A dor de uma saudade’ vive sempre em meu coração / Ao relembrar alguém que partiu deixando a recordação / Nunca mais hão de voltar os tempos felizes que passei em outros Carnavais”.

Nelson Ferreira – com quem Raul Moraes havia trabalhado na década de 1930 na Rádio Clube de Pernambuco, ambos revezando-se como pianistas e diretores de orquestra – eternizaria o nome do antigo colega, e também uma de suas composições mais expressivas, num frevo lançado pelo Bloco Carnavalesco Batutas de São José no início de 1957, quase 20 anos após a morte de Raul Moraes.

“Evocação” começa mencionando Felinto de Moraes (fundador do Apôis Fum e integrante dos Turunas da Mauriceia), Pedro Salgado (presidente do Bloco das Flores), Guilherme de Araújo – integrante não só do Apôis Fum, mas “a figura de proa do Andaluzas em Folia e do Pirilampos de Tejipió”, nas palavras do próprio Nelson Ferreira, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som de Pernambuco, transcrito por Leonardo Dantas Silva no livro “Carnaval do Recife” (Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2000) – e Fenelon Moreira de Albuquerque, também do Apôis Fum.

Na letra da segunda parte de “Evocação”, Nelson Ferreira faz menção à famosa marcha de Raul Moraes: “Na alta madrugada o coro entoava / Do bloco a marcha ‘Regresso’ / Que era um sucesso nos tempos ideais do velho Raul Moraes”. E então repetia a mesma melodia e os mesmos versos – apenas trocando “boa gente” por “minha gente” – da criação imortal do “velho” Raul: “Adeus, adeus, minha gente / Que já cantamos bastante”, para enfim concluir: “E o Recife adormecia / Ficava a sonhar / Ao som da triste melodia”.

“Lançado sem maiores pretensões pela gravadora pernambucana Mocambo, com o pessoal do bloco Batutas de São José, ‘Evocação’ se tornaria o maior sucesso do Carnaval de 1957, sobrepujando a produção do eixo Rio-São Paulo”, contam Jairo Severiano e Zuza Homem de Melo no volume 1 de “A canção no tempo” (São Paulo: Editora 34, 1997). Foi parar inclusive no cinema, na cena final do filme “Uma certa Lucrécia” (1957), de Fernando de Barros.

85 anos após o falecimento de Raul Moraes, sua obra continua ecoando pelas ruas do Bairro do Recife (o tradicional Recife Antigo) durante os festejos de Momo, seja através das vozes femininas do Coral Edgard Moraes – formado por filhas, netas, bisnetas e sobrinhas deste compositor –, seja no repertório dos blocos líricos pernambucanos. Com orquestras de pau e corda e flabelos encantadores, seus integrantes desfilam fazendo reverência às antigas agremiações e aos compositores seminais que, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século passado, começaram a burilar as sonoridades da folia na capital daquele estado.

E é para reverenciar Raul Moraes, um destes mestres primordiais, que encerramos o post com sua clássica marcha-regresso “Despedida”, feita para os Pirilampos de Tejipió e cantada por seus foliões em fevereiro de 1925, segundo atestava o Jornal do Recife do dia 3 daquele mês. Chamada pelo periódico de “marcha-recolher”, traz versos que lamentam, como de costume, o fim da festa que acabou – tristeza que só teima em terminar no ano seguinte: “Adeus, ó minha gente, o bloco vai embora / Sentindo que a alma chora e o coração fremente diz: ‘findou-se o Carnaval’ / Té para o ano, adeus / Guarda nossas saudades / Que implorarão aos céus felicidade para a nossa alma liberal / Esta canção saudosa há de fazer chorar / Sempre a recordar nossa gente buliçosa de regresso a cantar”...

Foto: Raul Moraes em 1936 / LP "Edgard e Raul Moraes - Glórias do Carnaval de Pernambuco" (Rozenblit, 1974) / Coleção José Ramos Tinhorão / IMS

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