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Peba, pimenta e fulô: na voz de Marinês, os 65 anos de dois grandes sucessos de João do Vale

Pedro Paulo Malta

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Sabe aquela história segundo a qual a palavra forró seria uma adaptação de “for all”, que por sua vez seria a maneira como os soldados estadunidenses se referiam às festas populares (“para todos”) que encontraram no Nordeste brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial? Pois é. História simpática e pitoresca, mas também imprecisa.

Até porque já se falava em forró muito antes de 1939, quando se deram as primeiras batalhas na Europa. Está, por exemplo, em dicionários lusitanos da língua portuguesa como o de João Ribeiro (1926) e o de J. T. da Silva Bastos (1928), em cujos verbetes aprendemos que sua origem é a palavra “forrobodó”, que por sua vez significa “baile popular, sarau mal frequentado” (no verbete do primeiro dicionário) ou ainda “baile reles, baile de pretos” (no segundo).

A “boa sociedade” da década de 1920 na certa teria uma “syncopa” se soubesse que dessas mesmas festas com “gente baixa ou equívoca” (ainda segundo João Ribeiro) surgiriam, dali a um tempo, algumas das músicas mais serelepes do repertório brasileiro de duplo sentido.

Como as duas do compositor João do Vale lançadas em setembro de 1957, num mesmo 78 rotações de Marinês e Sua Gente: o disco de nº 568 da Sinter, que trazia no lado A a gravação original de “Peba na pimenta”, enquanto no B vinha o primeiro registro de “Pisa na fulô”. Dois grandes sucessos da música popular brasileira que, já naquele ano de 1957, estiveram entre os mais tocados – e comentados – do país.

No artigo “Representações do feminino no forró do Nordeste”, publicado em 2016, a doutora em Literatura pela Universidade Estadual da Paraíba Claudeci Ribeiro da Silva contou uma história pitoresca sobre a repercussão da música: “Cabe lembrar que, no ano de 1957, quando do seu lançamento, a letra provocou polêmica com a Igreja e, apesar das campanhas desenvolvidas em Salvador, onde os padres conclamavam fiéis a quebrar o disco, porque entendiam que a música era um atentado à moral e os bons costumes, ‘Peba na pimenta’ começou a estourar nas paradas de sucesso.”

“Peba é um tatu”, explicou João do Vale ao produtor Fernando Faro no programa MPB Especial (TV Cultura, 1974). “A gente caça ele pra comer e com pimenta é mais gostoso. E é gostoso com leite de coco, né?”, disse o compositor, garantindo que “demora pra fazer não. É feito carne de porco, normal”.

Certamente, não foi a culinária que atiçou os sacerdotes baianos, mas a malícia que vai sugerida na história criada por João na composição co-assinada por José Batista e Adelino Rivera: a história da iguaria que “Seu Malaquia preparou” para “mais de quarenta” convidados (“só do povo de Campina”), entre eles Maria Benta, que era moça e acaba reagindo à ardência do prato, gemendo pra valer no refrão...

Ai, ai, ai, Seu Malaquia
Ai, ai, você disse que não ardia
Ai, ai, tá ardendo pra daná
Ai, ai, mas tá fazendo uma arrelia

O duplo sentido caiu como uma luva na voz jovem e espevitada de Marinês, que havia estreado em disco no ano anterior (1956), participando de um 78 rotações de Luiz Gonzaga. Foi por essa época, quando cantava com o Rei do Baião na Rádio Tupi, que conheceu João do Vale – ele aguardava a saída dos músicos na porta da emissora e Gonzaga os apresentou. João lhe disse que tinha adorado seu canto brejeiro. “Foi aí que ele me deu meus dois primeiros sucessos”, disse a cantora no programa Ensaio (TV Cultura, 1996).

Antes de gravá-los, já tinha feito três discos de 78 rotações, todos em 1957 e nenhum sem grande repercussão. Outra estreia importante nesse ano foi no cinema, cantando justamente “Peba na pimenta” na comédia “Rico ri à toa”, de Roberto Farias, que estreou nos cinemas de Rio e São Paulo no fim de setembro.

Já a história de “Pisa na fulô” João do Vale tratou de ambientar em sua própria cidade natal, Pedreiras (MA), mais especificamente na zona boêmia. “Rua da Golada é a rua do cabaré, sabe?”, contou no programa MPB Especial (TV Cultura, 1974), antes de se encher de orgulho: “Eles mudaram o nome, hoje sabe como é que chama? Rua Compositor João do Vale.”

Um dia desse fui dançar lá em Pedreiras
Na rua da Golada, gostei da brincadeira
Zé Caxangá era o tocador
Mas só tocava pisa na fulô

Curioso que João já não morava mais no sertão maranhense quando compôs a música, como contou em entrevista transcrita por Márcio Paschoal em sua biografia. “Fiz ‘Pisa na fulô’ aqui no Rio mesmo. Eu é que simulei a dança, para contar uma história, para contar o que eu queria contar”, relembra. “Tive de dizer que era uma dança.”

Nesta “dança” irresistível acaba entrando todo mundo: do vovô e da vovó à “menina que não tinha doze anos”, esta última numa precocidade assustadora já que a metáfora do arrasta-pé é a sedução ou o sexo. Retrato de um Brasil desigual, injusto e machista, cuja realidade tratada na música ainda persiste, nas capitais e nos sertões.

Diferentemente de “Peba na pimenta”, a igreja não viu problema na pisada ou na “fulô” (corruptela de flor, tão comum no Nordeste) que eram cantadas no lado B do disco e outras duas gravações na mesma época contribuíram para o sucesso. Primeiro uma de Zé (irmão de Luiz) Gonzaga, que saiu no mesmo ano de 1957 pelo selo Copacabana, e depois uma outra lançada pela RCA Victor em março de 1958, com enorme sucesso, no canto cool de Ivon Cury, alternando-se entre sua elegância de chansonnier e as vozes galhofeiras que faz a cada novo personagem que entra na história.

Nos anos seguintes a 1957, Marinês se firmou como uma das principais vozes do Nordeste, com direito a título de nobreza (“A Rainha do Xaxado”, assim batizada por Luiz Gonzaga) e tantas outras histórias salientes que gravou em sua discografia. Já a trajetória de João do Vale ganhou contornos mais politizados a partir de “Opinião”, o espetáculo-marco da canção de protesto que estreou no fim de 1964 e no qual dividia o palco com Zé Kéti e Nara Leão (depois Maria Bethânia).

No repertório estavam novas composições de João, como as engajadas “Sina de caboclo” e “Carcará”, além das nada politizadas “Peba na pimenta” e “Pisa na fulô”: sucessos garantidos já naquela época e até os dias atuais – onde quer que haja forrobodó.

Foto de Wilson Lopes / Revista Radiolândia, 21-12-1957 / Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional 

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