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J. Cascata: os 110 anos de um mestre da bossa, da troça e do repertório romântico

Pedro Paulo Malta

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No Brasil pré-bossa nova da década de 1950, uma das boas notícias da música brasileira foi a Velha Guarda: um conjunto capitaneado por Pixinguinha reunindo uma espécie de time dos sonhos do choro e do samba. Veteraníssimos músicos que traziam não só as levadas e o ritmo, como também histórias dos tempos da Praça Onze, de Tia Ciata e outras baianas boas de quitute e batucada.

Pois não foi pouco o sucesso que fizeram nas comemorações do quarto centenário da cidade de São Paulo (1954), com uma multidão que se reuniu no Parque Ibirapuera para ver Pixinguinha, Donga, João da Bahiana, Alfredinho Flautim e outros mestres da música e da elegância, que nos anos seguintes levariam sua bossa a shows e LPs igualmente aplaudidos.

No meio daqueles senhores lépidos (muitos deles nascidos no século 19), estava o caçula J. Cascata: tinha pouco mais de 40 anos naquela primeira metade da década de 1950, mas a folha corrida de sucessos era de veterano. A começar pelas duas composições que Orlando Silva, ainda iniciante, havia lançado em março de 1937, num mesmo disco da Victor com arranjos marcantes de Radamés Gnattali: o samba “Juramento falso” e a valsa “Lábios que beijei”.

Em ambas as músicas – até hoje obrigatórias em qualquer seresta que se preze – J. Cascata divide a autoria com Leonel Azevedo, parceiro mais constante em sua obra. Os dois se conheceram na Rádio Philips, onde Leonel ingressou em 1935, três anos após Cascata, que era contratado do programa Horas de Outro Mundo, de Renato Murce, mas como cantor.

Inicialmente, ele interpretava sucessos dos grandes cartazes da época: Patrício Teixeira, Francisco Alves e Silvio Caldas, entre outros. “Mas música do repertório dos outros não dá sangue, pensou ele provavelmente e, por necessidade imperiosa de músicas para cantar, foi que passou a compor regularmente”, escreveu o crítico Ary Vasconcelos (O Jornal, 20-04-1962).

A parceria com Leonel Azevedo rapidamente deu liga e resultou em composições românticas oferecidas a Orlando Silva, que era vizinho de J. Cascata e recebia suas produções em primeiríssima mão. As primeiras da dupla gravadas por ele saíram em junho de 1936: as canções “História joanina” e “Mágoas de caboclo”. Depois vieram outras, entre elas “Quero voltar aos braços teus”, valsa de setembro de 1940.

Intérprete mais importante de J. Cascata, o Cantor das Multidões lançou também, de sua autoria, belos sambas (como “Meu romance” e o carnavalesco “Jurei mas fracassei”, este em parceria com Antonio Almeida), além da melodiosa marcha “História antiga”, que fez sucesso na folia de 1939 e é fruto de sua parceria com Antônio Nássara.

Outras marchas com Nássara têm destaque em sua obra, como “Linda suburbana” (que Jorge Goulart lançou em 1957) e “É o maior”, que os Trigêmeos Vocalistas gravaram para o carnaval de 1956, sobre o sujeito que sonha ser “cantor de rádio ou então jogador de futebol”. Curiosamente, dois talentos de J. Cascata, que chegou a jogar no Carioca Esporte Clube (do Jardim Botânico) e foi o craque do time da Rádio Philips, jogando com o meia-direita Francisco Alves e o centroavante Silvio Caldas.

Sílvio, aliás, é outro nome fundamental na discografia de J. Cascata: foi ele que deu voz a histórias românticas como as da valsa “Maria” (com Leonel Azevedo) e do fox “Eu e você” (com J. Barcelos), lançadas num mesmo disco de abril de 1939. Mas sucesso mesmo o cantor fez com “Minha palhoça”: samba-choro com breques que Luís Barbosa já vinha “trabalhando” no rádio, mas foi Sílvio quem levou ao disco, em outubro de 1935.

Se você quisesse
Morar na minha palhoça
(Lá tem troça, se faz bossa)
Fica lá na roça
À beira de um riachão
(À noite tem um violão)

Uma deliciosa cantada em forma de samba no melhor estilo de Noel Rosa, aliás amigo de J. Cascata, que também era de Vila Isabel, nascido na Rua Souza Franco, no dia 22 (ou 23, a depender da fonte) de novembro de 1912. O que se sabe com certeza é que se chamava Álvaro Nunes e desde menino era louco pelo chafariz da Avenida 28 de Setembro – daí o apelido “Cascata”, como era chamado na própria família.

“Um dia, Cristóvão de Alencar ouviu-o e convidou-o para ingressar no rádio”, conta Ary Vasconcelos (O Jornal, 20-04-1962). “E quando chegou a hora de optar por um nome foi escolhido definitivamente o de ‘Cascata’, precedido de um ‘J’ sugerido pelo próprio Cristóvão e que não está ligado a nome algum.”

O mesmo texto informa que ele aprendeu música, ainda menino, atento aos saraus que o pai promovia em casa, com participações de instrumentistas importantes como Pedro Galdino (na flauta) e José Seixas (no bombardino). Já tinha 17 anos quando fez as primeiras composições, motivado por um bloco da Abolição – bairro da zona norte carioca onde sua família passou a viver no fim da década de 1910.

Mas foi com os amigos de Vila Isabel – entre eles os irmãos compositores Newton Teixeira e Valzinho – que J. Cascata formou o Grupo do Mato, com o qual iniciou a vida artística, no comecinho da década de 1930, na Rádio Guanabara. Para poder se acompanhar quando não estivesse com o conjunto (do qual era o cantor), passou a ter aulas de violão no bairro do Rocha com o veterano chorão Jorge Seixas.

A nova habilidade foi decisiva em sua atividade de compositor, sozinho ou com parceiros como o já citado Leonel Azevedo, com quem fez outros sucessos românticos – entre eles o samba “Quem foi”, gravado por Carlos Galhardo em 1939 – e também marchinhas ligeiras, como “Não pago o bonde”, sucesso de Odete Amaral no carnaval de 1938.

Também dignos de nota são outros parceiros na obra de J. Cascata. Como Wilson Batista, com quem fez “Refletindo bem”, samba de 1939. Ou Marino Pinto e José Gonçalves (o Zé da Zilda), que assinam com ele a composição do samba junino “Santo Antônio amigo”, de 1941. Já da parceria com o jornalista Bruno Gomes é o suingado e maledicente “Fernandinho”, samba desgarrado da safra de 1957.

Nessa época, J. Cascata já estava integrado à Velha Guarda, cantando e tocando seu afoxé de cabaça em shows e discos, num fim de carreira “natural e consagrador”, como definiu o crítico José Lino Grünewald (Correio da Manhã, 07-04-1965), para quem “o reaparecimento deste conjunto de grandes veteranos deu uma aula de música popular autêntica no marasmo daquele período que antecedeu o impacto reestruturador da bossa nova”.

São, aliás, deste contexto as únicas duas gravações de J. Cascata como cantor na Discografia Brasileira, em ambas acompanhado da Velha Guarda. Na primeira, canta o samba “Nosso ranchinho” (parceria dele com Donga), em registro lançado também no 10 polegadas “A Velha Guarda” (ouça aqui), lançado pela Sinter em 1955. Pela mesma gravadora e no mesmo ano saiu o disco “O carnaval da Velha Guarda” (ouça), de cujo repertório foi aproveitado o samba “Já te digo” (de Pixinguinha), cantado por J. Cascata, num 78 rotações lançado em julho de 1956.

E teve ainda a marchinha “É o que ela quer” (dele com Luiz Bittencourt), que Ademilde Fonseca lançou para o carnaval de 1961, numa gravação realizada pouco antes de J. Cascata adoecer, sofrendo de insuficiência renal, sendo internado no Hospital da Beneficência Espanhola, na Lapa. Foi lá que faleceu precocemente, aos 48 anos, no dia 27 de janeiro de 1961.

Seu corpo foi sepultado no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, com presenças estreladas da música popular brasileira, a começar pelos amigos Lamartine Babo, Orlando Silva, Carlos Galhardo, Donga, João da Bahiana e Pixinguinha, que relembrou o início artístico do amigo em depoimento ao Correio da Manhã (28-01-1961). “Ele tinha boa voz”, afirmou o grande flautista, saxofonista e arranjador. “O negócio todo era ter coragem para começar e para isso nós ficávamos empurrando o rapaz para o meio do palco até que se encorajava e começava.”

Ainda segundo o obituário do Correio da Manhã, J. Cascata era “oficial administrativo do Ministério do Trabalho” e deixou viúva e cinco filhos – além de uma obra formada por “verdadeiros monumentos da história da música popular brasileira”.

Foto: Coleção José Ramos Tinhorão / IMS

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